O rio que corta a comunidade de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, transbordou na tarde de quarta-feira (30), provocando inundações severas na área conhecida como Areal. A força das águas, agravada pelo nível elevado da Lagoa da Tijuca e pela ressaca marítima, transformou ruas em canais, impedindo a passagem de veículos e isolando dezenas de moradores.
Imagens registradas por moradores e captadas por helicópteros da imprensa exibiram cenas dramáticas de pessoas tentando atravessar as ruas alagadas, com a água chegando à altura dos joelhos. Uma das imagens mais marcantes mostra uma mulher carregando o filho nas costas, caminhando com dificuldade por entre águas turvas.
Vídeos mostram ainda carros parcialmente submersos e comerciantes com lojas fechadas por precaução. A situação persiste desde a noite de quarta-feira e segue crítica nesta quinta (31), com previsão de maré alta e chuvas intermitentes. A Prefeitura do Rio ainda não se pronunciou sobre ações emergenciais ou envio de equipes à região.
Combinado de ressaca e maré alta agrava enchente
De acordo com especialistas, o fenômeno foi agravado pela ressaca no litoral carioca, com ondas de até 4 metros de altura desde terça-feira (29). A Lagoa da Tijuca, que recebe o escoamento do Rio das Pedras e se conecta ao mar pelo canal da Joatinga, teve seu nível elevado, represando a água e forçando o refluxo pelas galerias pluviais — um ciclo comum em dias de maré cheia.
Esse fenômeno é particularmente problemático em áreas de baixada, como a comunidade de Rio das Pedras, que apresenta drenagem precária, solo impermeável e ocupação densa em zonas historicamente alagadiças. Mesmo sem chuvas intensas na madrugada, a maré foi suficiente para inundar ruas inteiras da favela.
Vulnerabilidade crônica e falta de resposta do poder público
Rio das Pedras é uma das comunidades mais populosas do Brasil, com mais de 140 mil moradores, segundo estimativas extraoficiais. A região enfrenta problemas históricos de saneamento, urbanização e abandono das autoridades. Frequentemente afetada por alagamentos e esgoto a céu aberto, a comunidade convive com riscos à saúde pública e perdas materiais em eventos climáticos.
Além dos problemas estruturais, a comunidade está marcada pela disputa territorial entre milicianos e traficantes, que exploram o território e impõem medo à população. Desde a década de 1990, a milícia domina a região, cobrando taxas ilegais e explorando serviços básicos como transporte alternativo e fornecimento de gás.
O risco de doenças causadas por contato com água contaminada — como leptospirose, hepatite A e doenças diarreicas — é alto em períodos como este, principalmente quando não há fornecimento adequado de água potável e coleta de lixo.
Falta de medidas preventivas
Apesar dos alertas de maré e ressaca emitidos pela Marinha e pela Defesa Civil, nenhuma barreira de contenção, sistema de drenagem emergencial ou abrigo temporário foi disponibilizado aos moradores até o momento. Em comunidades como Areal, a ausência de políticas públicas de prevenção expõe a população mais pobre aos efeitos imediatos da emergência climática urbana.
Sem alternativas, muitos moradores utilizam móveis como pontes improvisadas ou arriscam travessias perigosas com crianças, idosos e animais de estimação. Outros relatam perdas de eletrodomésticos, documentos e produtos de trabalho, como carrinhos de ambulantes e estoques de alimentos.
O que esperar nos próximos dias
Segundo a previsão do tempo, o mar continuará agitado nos próximos dias, mesmo após o fim do aviso de ressaca. A sexta-feira (1º) ainda terá ondas de até 2 metros, e a maré pode continuar represando o escoamento do rio. O cenário só deve melhorar a partir do domingo (3), com a previsão de redução do vento e do nível do mar.
Enquanto isso, moradores de Rio das Pedras cobram respostas da Prefeitura, Defesa Civil e órgãos de saneamento para evitar que tragédias semelhantes se repitam, especialmente em comunidades de alta densidade populacional e baixa infraestrutura.
Fontes:
odia.ig.com.br
noticias.r7.com
agendadopoder.com.br