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Inaugurado em 1907, o Mercado Municipal da Praça XV tinha mais de 22 mil metros quadrados e foi um dos principais centros de abastecimento do Rio. Conheça sua história, os motivos da demolição e a única estrutura que permanece de pé.

Quem passa pela Praça XV, no Centro do Rio de Janeiro, talvez não imagine que uma das maiores construções comerciais da cidade já ocupou parte daquela região. Com mais de 22 mil metros quadrados, estrutura metálica importada da Europa e cinco torres octogonais, o antigo Mercado Municipal da Praça XV foi um dos principais centros de abastecimento da capital durante mais de cinco décadas.

Inaugurado em 1907, o mercado reunia centenas de comerciantes e recebia diariamente moradores, trabalhadores e fornecedores de diferentes regiões. Sua localização, às margens da Baía de Guanabara, fazia dele um importante ponto de circulação de mercadorias e pessoas.

Apesar da importância econômica e da arquitetura monumental, quase toda a construção foi demolida no início da década de 1960 para dar lugar ao Elevado da Perimetral.

Hoje, apenas uma das torres permanece de pé, na Praça Marechal Âncora, preservando uma pequena parte da história de um dos mercados mais importantes que o Rio já teve.

Como surgiu o Mercado Municipal da Praça XV?

A história do Mercado Municipal começa muito antes de sua inauguração.

Desde o período colonial, a região da atual Praça XV concentrava atividades comerciais ligadas ao abastecimento da cidade, especialmente a venda de peixes e outros produtos que chegavam pela Baía de Guanabara.

Durante o século XIX, esse comércio passou a contar com instalações específicas, como o Mercado da Candelária, construído em 1841 a partir de um projeto do arquiteto francês Grandjean de Montigny.

Com o crescimento da população e as transformações urbanas do Rio, as antigas instalações passaram a ser consideradas insuficientes para atender às necessidades da capital brasileira.

Foi durante as reformas urbanas realizadas na administração do prefeito Pereira Passos, no início do século XX, que surgiu a proposta de construir um novo centro de abastecimento.

As obras começaram em 1903, e o novo Mercado Municipal foi inaugurado oficialmente em 14 de dezembro de 1907, entrando em funcionamento no ano seguinte.

Localizado no antigo Largo de Moura, entre a Praça XV, a Praça Marechal Âncora e a estação das barcas, o empreendimento substituiu o antigo Mercado da Candelária e se tornou uma das principais referências comerciais do Rio.

Uma construção de ferro que parecia ter vindo da Europa

Um dos aspectos mais impressionantes do Mercado Municipal era sua arquitetura.

Diferentemente de muitos edifícios construídos no Rio naquela época, o mercado possuía uma estrutura predominantemente metálica, com peças produzidas na Europa, especialmente na Bélgica e na Inglaterra.

O projeto é atribuído ao engenheiro português Alfredo Azevedo Marques e seguia características da arquitetura de ferro, bastante utilizada em mercados e grandes estruturas comerciais europeias entre o final do século XIX e o início do século XX.

O edifício ocupava aproximadamente 22.500 metros quadrados e tinha planta quadrada, formada por longos pavilhões comerciais.

Sua construção contava com cinco torres octogonais: quatro menores, posicionadas nos cantos externos, e uma maior, localizada na parte central, que possuía um relógio.

O conjunto reunia ferro, vidro e elementos decorativos que davam ao mercado uma aparência bastante diferente das construções tradicionais do Centro.

As fotografias históricas mostram uma estrutura monumental às margens da Baía de Guanabara, cercada por embarcações, comerciantes e pedestres.

Atualmente, essas imagens ajudam a compreender a dimensão de uma construção que praticamente desapareceu da paisagem carioca.

O coração do abastecimento do Rio de Janeiro

Durante mais de 50 anos, o Mercado Municipal desempenhou um papel fundamental no abastecimento da cidade.

O espaço contava com aproximadamente 200 boxes comerciais, distribuídos por cerca de 20 ruas internas, onde eram vendidos alimentos, bebidas e produtos de secos e molhados.

Entre os comerciantes estavam muitos imigrantes portugueses, italianos e espanhóis, que encontraram no mercado oportunidades de trabalho e desenvolvimento de seus negócios.

A movimentação não se limitava aos consumidores que faziam compras para suas residências.

O mercado também abastecia restaurantes, hospitais, quartéis e embarcações que circulavam pela região portuária.

Sua proximidade com o mar facilitava o transporte de mercadorias e reforçava a importância econômica da Praça XV.

Ao longo das décadas, o espaço se tornou também um ponto de convivência, reunindo comerciantes, trabalhadores e frequentadores que faziam parte do cotidiano do Centro.

Em 1922, durante a Exposição Internacional do Centenário da Independência, o mercado chegou a passar por alterações temporárias em sua aparência. Uma de suas alas foi adaptada para receber o Pavilhão das Indústrias Particulares.

A participação no evento demonstrava a relevância do empreendimento em uma época de grandes transformações urbanas.

Por que o Mercado Municipal da Praça XV foi demolido?

Apesar de sua importância histórica e comercial, o destino do Mercado Municipal começou a mudar durante a década de 1950.

Naquele período, o Rio de Janeiro passava por novas transformações urbanas, com investimentos em avenidas, viadutos e outras estruturas destinadas à circulação de automóveis.

Entre os projetos estava a construção do Elevado da Perimetral, uma via expressa que atravessaria parte da região central.

O problema era que o traçado da nova estrutura passava justamente pela área ocupada pelo Mercado Municipal.

Além disso, o contrato de concessão do terreno, estabelecido por 50 anos, havia terminado em 1957.

Com o avanço das obras viárias e a decisão de não renovar a concessão, os comerciantes precisaram deixar o espaço.

O encerramento definitivo das atividades aconteceu em 9 de janeiro de 1962.

Naquela manhã, após a retirada das últimas mercadorias, começou a demolição de uma das construções mais características da Praça XV.

O processo eliminou praticamente toda a estrutura metálica do antigo mercado, incluindo seus pavilhões e a maior parte das torres.

A decisão marcou uma mudança na paisagem do Centro e representou a perda de um importante espaço comercial e arquitetônico da cidade.

Para onde foram os comerciantes do antigo mercado?

Com a desativação do Mercado Municipal, parte dos comerciantes precisou reorganizar suas atividades em outras regiões do Rio.

Um dos principais destinos foi Benfica, na Zona Norte, onde surgiu o Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara, conhecido como Cadeg.

Inaugurado em 1962, o Cadeg foi criado por comerciantes ligados ao antigo mercado e passou a concentrar atividades de abastecimento que anteriormente aconteciam na Praça XV.

Outro empreendimento inaugurado naquele período foi o Mercado de São Sebastião, na Penha.

Com o passar dos anos, o Cadeg ampliou suas atividades e passou a reunir restaurantes, lojas especializadas, distribuidoras de flores e estabelecimentos de diferentes segmentos.

Em 2012, durante as comemorações de seus 50 anos, o Cadeg recebeu oficialmente da Prefeitura o título de Mercado Municipal do Rio de Janeiro.

Dessa forma, embora a construção original da Praça XV tenha desaparecido, parte de sua história comercial continuou presente em Benfica.

A única torre que sobreviveu à demolição

Enquanto os pavilhões do Mercado Municipal eram desmontados, uma pequena parte do complexo conseguiu escapar da destruição.

Era um dos quatro torreões menores, onde funcionava, desde 1933, o Restaurante Albamar.

O estabelecimento havia se tornado conhecido por sua gastronomia e pela localização próxima à Baía de Guanabara.

Segundo registros históricos, funcionários e frequentadores do restaurante se mobilizaram para impedir que o edifício também fosse demolido.

A iniciativa contou com pedidos encaminhados ao então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, e contribuiu para a preservação da estrutura.

O torreão permaneceu de pé enquanto o restante do mercado desaparecia.

Em 1964, seu interior passou por uma reforma projetada pelo arquiteto Roberto da Costa Soares.

A importância histórica da construção foi reconhecida oficialmente em 1983, quando recebeu o tombamento definitivo pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).

O edifício fica na Praça Marechal Âncora e continua sendo a única estrutura remanescente do antigo Mercado Municipal.

Ao longo dos anos, o restaurante também utilizou o nome Ancoramar, referência à praça onde está localizado.

A construção preserva características da arquitetura metálica original, permitindo que moradores e visitantes conheçam uma pequena parte do complexo inaugurado no início do século XX.

A Perimetral também desapareceu da paisagem carioca

A história do antigo mercado guarda uma curiosidade.

O Elevado da Perimetral, cuja construção contribuiu diretamente para a demolição do Mercado Municipal, também acabou sendo retirado décadas depois.

A estrutura viária foi desmontada durante as intervenções de revitalização da região portuária, realizadas na década de 2010.

O projeto modificou novamente a paisagem da Praça XV e de seu entorno, recuperando áreas de circulação e parte da vista para a Baía de Guanabara.

Com o desaparecimento da Perimetral, o espaço que havia sido ocupado pelo antigo mercado voltou a despertar discussões sobre possíveis formas de utilização.

Ao longo dos anos, arquitetos e urbanistas apresentaram propostas de reconstrução ou criação de novos espaços comerciais inspirados no edifício original.

Entretanto, o antigo Mercado Municipal nunca foi reconstruído.

Praça XV pode voltar a receber um espaço gastronômico e cultural

Mais de seis décadas após a demolição do mercado, uma nova proposta pretende recuperar parte da vocação comercial da região.

Em setembro de 2026, a Prefeitura do Rio abriu uma consulta pública sobre um projeto de revitalização da Praça Marechal Âncora, área localizada no entorno da Praça XV.

A iniciativa prevê a possibilidade de transformar parte do espaço em um polo gastronômico, cultural e de lazer, com restaurantes, bares, lojas e áreas de convivência.

A proposta considera uma concessão à iniciativa privada por 20 anos e a construção de até 4 mil metros quadrados destinados a atividades comerciais.

O projeto busca aproveitar a localização próxima à Baía de Guanabara e recuperar a utilização da região como espaço de encontros e atividades econômicas.

Apesar da referência histórica ao antigo mercado, a proposta não representa uma reconstrução integral do edifício demolido.

Até o início de novembro de 2026, a iniciativa ainda estava em fase de estudos e procedimentos preparatórios, sem confirmação da execução das obras.

Uma parte da história do Rio que permanece de pé

O antigo Mercado Municipal da Praça XV foi muito mais do que um lugar destinado à compra e venda de alimentos.

Durante mais de cinco décadas, representou uma parte importante da economia, da arquitetura e do cotidiano do Rio de Janeiro.

Sua construção acompanhou a modernização da capital no início do século XX, enquanto sua demolição refletiu uma nova fase de transformações urbanas, marcada pela expansão das grandes vias destinadas aos automóveis.

Hoje, fotografias antigas permitem conhecer a dimensão do empreendimento e comparar a paisagem histórica com a configuração atual da Praça XV.

Entre tantas mudanças, uma única torre continua resistindo à passagem do tempo.

Localizada na Praça Marechal Âncora, ela permanece como testemunho de uma construção que marcou gerações e ajuda a preservar a memória de um Rio de Janeiro que já não existe.

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