Nesta segunda-feira (8), a Comissão Especial criada para estudar e discutir as políticas públicas sobre as apostas online, ou “bets”, se reuniu com representantes das secretarias municipais de Educação e Saúde. O encontro, realizado na Câmara Municipal, teve como foco principal os impactos do mercado de apostas na vida de crianças, adolescentes e famílias no Rio de Janeiro.
A reunião foi presidida pelo vereador Salvino Oliveira (PSD) e contou com a presença dos vereadores Wagner Tavares (PSB) e Flávio Valle (PSD), além dos representantes do Poder Executivo: o subsecretário de Educação, Hugo Nepomuceno, e o superintendente de Saúde Mental, Hugo Fagundes.
Regulamentação das bets: desafios e preocupações
Durante o encontro, Flávio Valle destacou um estudo elaborado por seu mandato sobre a possível regulamentação das apostas online. O vereador afirmou que, embora o mercado de apostas traga benefícios econômicos e possa gerar turismo, é fundamental que a regulamentação seja rígida e que o bem-estar das famílias cariocas seja colocado em primeiro lugar.
“É preciso um modelo de regulação justo, mas que coloque a saúde e a segurança das famílias em primeiro plano. Precisamos de um controle efetivo sobre esse mercado crescente”, afirmou Valle.
Salvino Oliveira, presidente da comissão, apontou um aumento alarmante nos casos de vícios em apostas, com um crescimento superior a 1.000% na sociedade. “O maior desafio é a fiscalização das apostas clandestinas. Hoje, cerca de 200 empresas têm autorização para operar, mas cerca de 6.000 funcionam na ilegalidade”, destacou Oliveira. Ele também enfatizou os efeitos devastadores do vício, que têm desestruturado famílias e causado graves problemas financeiros.
Impactos nas crianças e jovens: aumento de problemas de saúde mental
O subsecretário de Educação, Hugo Nepomuceno, reforçou a preocupação da Secretaria Municipal de Educação com os impactos das apostas online no ambiente escolar. “As apostas vêm com uma roupagem lúdica, e os adolescentes, que são mais suscetíveis a influências externas, acabam sendo atraídos por esse tipo de plataforma”, alertou Nepomuceno.
A secretaria, por meio do Programa de Saúde nas Escolas, tem promovido debates sobre saúde mental e segurança digital. Uma das estratégias inclui o Ginásio Educacional Tecnológico (GET), que busca prevenir o envolvimento de jovens com riscos online.
Saúde mental: falta de estrutura e dados incompletos
O superintendente de Saúde Mental, Hugo Fagundes, afirmou que, embora existam registros de casos de vício em apostas, a estrutura de saúde municipal ainda não está preparada para lidar com o problema. Até 2025, foram registrados 35 casos, mas Fagundes alertou que esses números não refletem a realidade. “Sabemos que o número real é muito maior. Precisamos mapear esse problema e treinar os profissionais da saúde para lidar com ele de forma mais eficaz”, disse.
Ele também destacou a importância de desestimular a propaganda das apostas. “O sucesso da redução do tabagismo, por exemplo, foi alcançado com a proibição de publicidade. Precisamos seguir o mesmo caminho com as apostas”, afirmou Fagundes.
Propostas e soluções: fortalecimento das campanhas educativas
A Comissão Especial também discutiu a criação de canais específicos para que as pessoas possam buscar ajuda em caso de vício em apostas. O vereador Wagner Tavares sugeriu que fosse criado um canal diferenciado, de forma reservada, para que as vítimas pudessem procurar ajuda sem vergonha ou medo de julgamento.
Hugo Nepomuceno, por sua vez, mencionou a importância de ampliar as campanhas educativas nas escolas e de envolver os alunos no debate. “O protagonismo das crianças e adolescentes é fundamental. Eles podem ser multiplicadores desse conhecimento nas suas casas e comunidades”, afirmou.
Próximos passos: mais reuniões e ações concretas
Para Salvino Oliveira, a falta de debates profundos sobre o tema nas esferas políticas e sociais tem sido um obstáculo. “Infelizmente, vejo que muitos influenciadores e artistas promovem plataformas de apostas sem se preocupar com o sofrimento das famílias. Precisamos de uma regulamentação que priorize o bem-estar das pessoas”, lamentou.
A Comissão Especial ainda realizará mais cinco reuniões para continuar discutindo os impactos das apostas online na sociedade carioca e buscar soluções eficazes para o problema.
Fontes: camara.rio/