O governo dos Estados Unidos aprovou a venda de 20 fuzis de precisão ao Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) do Rio de Janeiro por cerca de R$ 800 mil, mesmo após alertas diplomáticos sobre o risco de o armamento ser usado em execuções extrajudiciais. A negociação, feita de forma reservada durante o governo Joe Biden, envolveu rifles produzidos pela empresa Daniel Defense LLC, sediada no estado norte-americano da Geórgia.
Segundo documentos oficiais citados pela imprensa internacional, os alertas vieram de diplomatas, especialistas em segurança pública e representantes de direitos humanos, que recomendaram ao Departamento de Estado dos EUA que bloqueasse a exportação. Mesmo assim, o envio foi autorizado, e as armas chegaram ao Brasil em 2024, após longas discussões internas no governo americano.
Venda foi aprovada apesar de resistência diplomática
A operação, avaliada em US$ 150 mil, foi contestada por autoridades americanas, incluindo a então embaixadora dos EUA no Brasil, Elizabeth Bagley. Em um memorando de janeiro de 2024, obtido pela agência de notícias, o Bope é descrito como “uma das unidades policiais mais notórias do Brasil em relação a assassinatos de civis”.
O documento também destaca que o Departamento de Estado havia recebido relatórios de entidades internacionais sobre a alta letalidade policial no Rio de Janeiro — somente em 2023, 703 pessoas foram mortas por ações das forças de segurança, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Além dos rifles, a Polícia do Rio também tentou comprar silenciadores da empresa Griffin Armament, de Wisconsin, mas essa parte da negociação foi bloqueada pelos EUA. Fontes afirmam que diplomatas ficaram impressionados com a pressão de aliados de Donald Trump pela liberação da compra de acessórios militares.
Histórico de compras e críticas internacionais
Essa não foi a primeira negociação entre o Bope e fabricantes de armas americanas. O batalhão já teria adquirido ao menos 800 fuzis de empresas dos EUA nos últimos anos, todas aprovadas por diferentes governos norte-americanos.
Durante o governo Trump, o Departamento de Estado manteve uma política de liberação facilitada para parceiros de segurança considerados confiáveis, criticando as restrições impostas por Joe Biden. Em nota, o órgão afirmou que as diretrizes mais rígidas do governo democrata “enfraqueceram aliados e encorajaram gangues violentas”.
A venda dos rifles ganhou destaque após a megaoperação policial de 28 de outubro, que deixou 121 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, incluindo dois militares do Bope e dois policiais civis. Ainda não há confirmação se as armas americanas foram utilizadas na ação.
O governo do Estado do Rio de Janeiro e a Secretaria de Polícia Militar foram procurados pela imprensa, mas não se manifestaram até o momento.
Debate internacional sobre direitos humanos
A aprovação da venda reacendeu o debate sobre o controle de exportação de armas dos EUA para países com histórico de violência policial. Diplomatas e entidades de direitos humanos apontam que o caso pode representar uma violação indireta das diretrizes de exportação norte-americanas, que impedem o envio de equipamentos militares a instituições envolvidas em abusos de direitos humanos.
Organizações internacionais cobram maior transparência e fiscalização nas transações entre empresas armamentistas e forças policiais brasileiras, especialmente após o aumento do número de operações letais no Rio.