Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
A Prefeitura do Rio de Janeiro adotou o Preditor, uma ferramenta baseada em dados, para detectar precocemente alunos com alto risco de evasão e reprovação escolar. A iniciativa, desenvolvida pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), já acompanha 450 mil estudantes do ensino fundamental II (6º ao 9º ano) da rede pública municipal.
Graças à tecnologia, a taxa de reprovação caiu de 2,7% em 2023 para 2% em 2024. Aproximadamente dois terços dos alunos monitorados conseguiram se recuperar e foram aprovados, segundo balanço recente da Secretaria Municipal de Educação.
Casos reais mostram impacto direto
Casos como o de Alfredo, de 13 anos, e Aurélio, de 14, mostram a eficácia da ferramenta. Ambos haviam interrompido os estudos por motivos distintos: desinteresse escolar e influência do ambiente comunitário. As escolas acionaram os responsáveis a partir dos dados do Preditor. Com o apoio da família, da igreja e da própria comunidade, os adolescentes retornaram às aulas e retomaram o caminho da educação.
— O Preditor ajuda a antecipar situações para que possamos agir mais rapidamente — afirma Renan Ferreirinha, secretário municipal de Educação.
Ele ressalta que a evasão escolar decorre de múltiplos fatores, como gravidez precoce, doenças familiares, assédio de traficantes e desmotivação com o sistema educacional.
Ampliação do projeto e protocolo de ação
Em 2024, o projeto se estendeu para os alunos do 3º ao 5º ano do ensino fundamental I. Apenas os dois primeiros anos da alfabetização ficaram de fora. O IMDS também trabalha na criação de um Protocolo de Ações, previsto para o ano que vem. O documento vai orientar professores sobre como intervir diante de diferentes situações identificadas nos dados dos alunos.
— A defasagem idade-série é um dos principais gatilhos para a evasão escolar — afirma Paulo Tafner, presidente do IMDS. Ele enfatiza que a educação é um dos pilares para combater a pobreza estrutural.
Funcionamento da ferramenta Preditor
A ferramenta utiliza mais de 20 variáveis, divididas em seis dimensões: histórico do estudante, perfil da turma, assiduidade, notas, gestão escolar e perfil dos professores. Com 94% de precisão, o Preditor avalia os dados desde o início do ano letivo, cruzando-os com os resultados bimestrais.
A cientista de dados Mônica Bahia, que coordenou o desenvolvimento da tecnologia, destaca que a identificação precoce dos estudantes em risco permite a adoção de medidas eficazes dentro do prazo necessário para evitar a evasão.
Importante salientar que os dados são anonimizados. A Secretaria de Educação recebe os códigos dos alunos em risco e é responsável por entrar em contato com as famílias.
Desafios na utilização de dados públicos
Apesar dos resultados positivos, especialistas alertam para um “apagão” de dados públicos. Órgãos federais têm restringido o acesso a microdados com base na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Isso prejudica estudos e formulação de políticas públicas baseadas em evidências.
— O cruzamento de informações do Caged com dados do Bolsa Família, por exemplo, está impedido — afirma Tafner. Ele alerta que a limitação também compromete avaliações educacionais conduzidas com dados do Inep.
O Ministério do Trabalho reconhece a importância do acesso a dados, mas argumenta que deve seguir as salvaguardas impostas pela LGPD. O Inep informou que reestruturou os formatos dos arquivos públicos para impedir a identificação de pessoas.
Fonte: oglobo.globo.com