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O Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando Puro (TCP) e milícias ampliaram o controle sobre o mercado de internet no Rio de Janeiro. O esquema, que começou em comunidades, já alcança ruas adjacentes e até cidades do interior. Segundo a Polícia Civil, essa prática funciona como um monopólio forçado, prejudicando moradores e empresários.
O delegado Pedro Brasil, titular da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados, descreveu a situação como uma “pandemia de monopólios”. Ele destacou que o modelo se fortaleceu nos últimos dois anos, impulsionado pela expansão territorial dos grupos armados e pelas restrições às operações policiais em favelas.
Interior também é afetado
A prática não se limita mais à região metropolitana. Cidades como São Pedro da Aldeia, Itaboraí e Cachoeiras de Macacu também sofrem com a imposição de serviços de internet ligados ao crime. De acordo com investigações, o domínio territorial é a base para obrigar moradores a contratar apenas os provedores controlados pelas facções.
Métodos de coerção
Os grupos expulsam empresas tradicionais como Claro e Vivo, além de pequenos provedores independentes. A estratégia inclui vandalismo contra cabos, furto de equipamentos e até instalação de infraestrutura própria. Muitas vezes, empresas ligadas ao crime operam de forma aparentemente legal, registradas na Anatel. Em alguns casos, operadoras só permanecem em determinadas áreas após firmar parcerias com facções ou milícias.
As investigações mostram que o objetivo central é maximizar lucros e lavar dinheiro, reproduzindo estratégias já usadas em outros setores, como o comércio de gás, carvão, gelo e até transporte alternativo.
Operações policiais recentes
A Polícia Civil deflagrou a Operação Rede Obscura no mês passado, visando empresas de internet suspeitas de ligação com o tráfico. Uma delas atuava no Morro do Quitungo com apoio do Comando Vermelho. Outra, ligada ao TCP, tinha atuação em Cordovil e Cidade Alta.
Outro inquérito revelou que empresas de fachada operavam em conluio com o CV, reforçando o monopólio e ajudando a consolidar o poder da facção. Em Duque de Caxias, criminosos foram flagrados cortando cabos de concorrentes na Avenida São Paulo.
Ações da Anatel e do setor
A superintendente de Fiscalização da Anatel, Gesiléa Fonseca Teles, afirmou que a agência colabora com investigações sempre que surgem indícios de envolvimento de empresas com o crime. Segundo ela, existem provedores autorizados e outros clandestinos, mas já foram identificadas conexões de ambos com facções.
A Conexis Brasil Digital, que representa operadoras nacionais, relatou que furtos e vandalismo causam prejuízos milionários e deixam milhões de consumidores sem acesso a serviços essenciais, como polícia, bombeiros e emergências médicas.
Expansão para outros estados
O problema já se espalhou para estados como o Ceará, onde a Polícia Civil prendeu mais de 60 pessoas ligadas a ataques contra provedores de internet. Entre os presos estavam donos de provedores clandestinos, executores de atentados e mandantes ligados ao tráfico de drogas.
O Sindicato Interestadual dos Provedores de Acesso à Internet (Sinet) relatou que, em alguns casos, empresas foram forçadas a trabalhar para o crime mediante ameaças a proprietários e familiares. A prática já foi registrada também no Espírito Santo e na Bahia.
Um negócio estratégico e lucrativo
Segundo Edson Vismona, presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade, o mercado de internet se tornou estratégico para organizações criminosas. Além de gerar receita, simboliza poder e amplia o controle sobre comunidades e cidades.
“A internet se tornou estratégica para essas organizações, não apenas como fonte de receita, mas também como demonstração de poder”, afirmou Vismona.