Armas de uso exclusivo de forças armadas da América do Sul estão entre os 91 fuzis apreendidos durante a megaoperação policial realizada nos complexos da Penha e do Alemão, na última terça-feira (28). Segundo a Polícia Civil do Rio de Janeiro, os armamentos pertencem a modelos utilizados por exércitos da Venezuela, Argentina, Peru e Brasil, e ajudam a dimensionar o poder de fogo do Comando Vermelho, principal facção criminosa em atuação na região.
A apreensão — a maior desde 2007 — é vista como um marco no combate ao tráfico de armas no estado. Segundo os investigadores, insígnias, números de série e inscrições militares nas armas indicam que parte delas pode ter sido desviada de arsenais oficiais ou traficada por rotas clandestinas que cruzam Paraguai e Bolívia antes de chegar ao Brasil.
Rotas internacionais e esquema de montagem de fuzis
Os fuzis apreendidos, na maioria dos calibres 5.56 e 7.62, são de origem europeia e chegaram ao país por rotas ilegais controladas por organizações transnacionais ligadas ao tráfico de drogas e armas. De acordo com a investigação, muitos criminosos importam peças separadas de armamentos — como coronhas, canos e carregadores — e as montam no próprio Rio de Janeiro, aproveitando brechas na fiscalização de compras online.
Entre as armas apreendidas, há exemplares com símbolos gravados de forças militares estrangeiras e até inscrições que fazem referência a facções e crimes específicos, como o artigo 157 do Código Penal (roubo armado).
A Polícia Civil informou que todas as armas passarão por perícia balística e rastreamento internacional para identificar fornecedores, intermediários e rotas de entrada. Parte dos armamentos, por estarem em bom estado de conservação, pode ser incorporada ao arsenal oficial das forças de segurança.
Apreensões em alta e o domínio do tráfico no Rio
Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que, entre janeiro e setembro de 2025, foram apreendidos 593 fuzis no estado do Rio de Janeiro, o maior número desde o início da série histórica, em 2007. No mesmo período, 1.471 fuzis foram recolhidos em todo o Brasil, sendo 40% das apreensões apenas no Rio — o que confirma o estado como principal polo de circulação de armamento pesado no país.
Na prática, a cada cinco fuzis apreendidos no território nacional, dois estão em poder de facções cariocas. O dado reforça a preocupação das autoridades com a capacidade bélica crescente das organizações criminosas e a integração entre facções de diferentes estados e países.
Megaoperação mais letal da história
A operação Contenção, deflagrada nos complexos da Penha e do Alemão, foi a mais letal da história do Rio de Janeiro, com 121 mortos — sendo 117 suspeitos e quatro policiais. A ação mobilizou 2.500 agentes das polícias Civil e Militar, e teve como objetivo enfraquecer a estrutura do Comando Vermelho e cumprir 100 mandados de prisão e 150 de busca e apreensão.
O governo do estado afirma que a operação buscou impedir a expansão territorial do CV e neutralizar lideranças envolvidas em crimes de tráfico de drogas, homicídios e lavagem de dinheiro. A investigação segue com foco nas rotas de armas e na origem internacional dos fuzis apreendidos, considerada uma das frentes mais sensíveis no combate ao crime organizado.