Foto: REUTERS/Willy Kurniawan
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou duramente a megaoperação policial realizada no Rio de Janeiro no fim de outubro, que terminou com 121 mortos, entre eles quatro policiais. Em entrevista a agências internacionais nesta terça-feira (4), Lula afirmou que “houve uma matança” e considerou a operação “desastrosa” do ponto de vista da ação estatal.
“A ordem do juiz era para que fossem cumpridos mandados de prisão, não para uma matança — e, no entanto, houve uma matança”, declarou o presidente. “É importante verificar as circunstâncias em que tudo ocorreu.”
A ação, conduzida pelas forças de segurança do Rio, teve como alvo o Comando Vermelho (CV) e foi classificada pelo governo fluminense como a mais letal da história do Brasil.
Governo federal quer investigação paralela
Lula anunciou que o governo federal pressionará por uma investigação independente para apurar as mortes e as condições da operação. Ele afirmou que pretende envolver legistas da Polícia Federal no processo de perícia dos corpos.
“Estamos avaliando a possibilidade de que os legistas da PF participem da investigação, para entender exatamente como tudo foi feito”, disse.
A fala ocorre após manifestações do Ministério Público Federal (MPF), da Defensoria Pública da União (DPU) e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, que classificaram a operação como uma chacina e pediram apuração sobre possíveis homicídios ilegais.
Na operação, 59 mortos tinham mandados de prisão, enquanto 97 apresentavam antecedentes criminais. No entanto, 17 não tinham registros anteriores, e 12 desses apresentavam indícios de ligação com o tráfico em redes sociais, segundo a Polícia Civil.
Castro defende ação e vê “sucesso”
O governador Cláudio Castro (PL) afirmou que a operação foi um “duro golpe na criminalidade” e que as únicas vítimas reais foram os policiais mortos. Segundo ele, todos os demais mortos eram criminosos.
“As nossas polícias estão sozinhas, sem apoio de forças federais. Mesmo assim, demos uma resposta firme ao crime”, afirmou Castro.
Dias depois, o governador recuou parcialmente e disse ter sido mal interpretado, ressaltando que buscava apenas ressaltar a autonomia do estado no combate ao crime.
A operação contou com 2,5 mil agentes, 180 mandados de busca e apreensão e 100 de prisão, resultando em 113 detenções. No entanto, os principais líderes do Comando Vermelho, como Edgar Alves de Andrade (Doca) e Pedro Paulo Guedes (Pedro Bala), continuam foragidos.
Repercussão internacional e apoio popular
A ONU declarou estar “horrorizada” com o número de mortos e pediu investigação imediata sobre o uso desproporcional da força policial. Organizações brasileiras de direitos humanos também denunciaram a operação como um massacre incompatível com padrões democráticos de segurança pública.
Apesar das críticas, pesquisas indicam apoio majoritário da população. Levantamento do AtlasIntel mostrou que 55% dos brasileiros consideram a operação “bem-sucedida”, índice que sobe para 62% no estado do Rio e atinge 80% entre moradores de favelas. O Datafolha apontou avaliação positiva semelhante, com 57% de aprovação entre os entrevistados no Grande Rio.
Analistas políticos avaliam que o episódio reforçou a popularidade de Cláudio Castro, enquanto colocou Lula diante de um dilema: equilibrar o discurso de defesa dos direitos humanos com a pressão social por ações duras contra o crime organizado.
Disputa política e críticas à segurança
O debate acirrou a relação entre o governo federal e o Palácio Guanabara. Castro afirmou que o Rio estava “sozinho” na operação, sem apoio de blindados ou agentes federais. Em resposta, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, disse que nenhum pedido de auxílio havia sido feito e que o governo nunca negou cooperação.
Após o impasse, ambos se reuniram no Rio e anunciaram a criação de um escritório integrado de combate ao crime organizado.
Para especialistas, a operação teve caráter midiático e alto custo humano. O especialista em segurança pública Ricardo Brisolla Balestreri afirmou que ações dessa magnitude não reduzem o crime e exibem mais espetáculo do que estratégia.
“É de uma irresponsabilidade enorme colocar 2,5 mil policiais em confronto com grupos fortemente armados, sem preparo adequado, apenas para criar impacto midiático”, declarou.
Lula tenta reconstruir narrativa
Em meio às críticas, Lula reiterou nas redes sociais que o governo condena o crime organizado, mas não aceita o extermínio como política pública. O presidente lembrou da operação contra o PCC, realizada em agosto, como exemplo de ação planejada e eficaz.
“Precisamos atingir a espinha dorsal do tráfico sem colocar policiais, crianças e famílias inocentes em risco”, escreveu.
Lula também rebateu críticas antigas sobre uma fala polêmica em que disse que “traficantes eram vítimas dos usuários”. Segundo ele, a frase foi “mal colocada” e não reflete sua posição sobre o combate ao crime.