Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Uma nova edição do Mapa Histórico dos Grupos Armados na Região Metropolitana do Rio revelou um cenário ainda mais complexo da presença de facções e milícias no território fluminense.
Segundo o estudo, divulgado nesta quarta-feira (4) pelo GENI/UFF em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, 4 milhões de pessoas viviam, em 2024, sob controle ou influência direta de grupos armados.
Esse número, portanto, representa aproximadamente um terço da população da região metropolitana.
Os pesquisadores analisaram denúncias, bases públicas e dados georreferenciados ao longo de 18 anos, construindo a maior série histórica sobre o tema no país. As conclusões apontam que a área controlada cresceu 130% desde 2007, enquanto a quantidade de moradores atingidos aumentou 59%.
Como os grupos exercem dominação nas comunidades
O estudo diferencia controle e influência.
- Controle envolve cobrança de taxas, imposição de regras e uso real ou potencial da violência.
- Influência ocorre quando esses mecanismos aparecem de forma parcial ou esporádica.
Em 2024, 29,7% da população vivia sob controle direto, enquanto 5,3% estava em áreas influenciadas. Essa distinção ajuda a identificar regiões com dominação consolidada e outras onde o crime avança de forma fragmentada.
Dois ciclos de crescimento e retração
A série histórica mostra que o domínio armado não evoluiu de forma linear.
Entre 2016 e 2020, o avanço foi intenso e coincidiu com a crise fiscal do estado, o enfraquecimento das UPPs e a intervenção federal.
A partir de 2020, porém, ocorreu uma retração moderada, impulsionada principalmente pela perda de territórios pelas milícias após operações que atingiram suas lideranças.
Apesar dessa redução, a presença miliciana em termos territoriais continua expressiva e chega a quase metade da área dominada no Grande Rio.
Quem domina mais território e quem controla mais pessoas
O levantamento mostra dinâmicas distintas:
- Milícias dominam quase 50% da área territorial sob controle criminoso.
- Comando Vermelho (CV) é a facção com mais moradores submetidos ao seu controle.
- TCP cresce desde 2018, ampliando sua presença populacional.
- ADA segue em retração contínua.
Colonização e conquista explicam avanço dos grupos
Os pesquisadores identificam dois movimentos principais:
- Colonização: ocupação de áreas recém-urbanizadas, comum entre milícias, que avançam sobre regiões com intenso mercado imobiliário e menos presença estatal.
- Conquista: substituição de grupos rivais em regiões densamente povoadas, prática típica das facções.
Impactos variam conforme a região metropolitana
O domínio muda de acordo com cada área:
- No Leste Fluminense, o CV predomina amplamente.
- Na Baixada Fluminense, a disputa é intensa e envolve milícias e facções simultaneamente.
- No município do Rio, 42,4% da população vive sob controle ou influência, com predomínio miliciano na Zona Oeste e maior presença de facções no Centro, Zona Sul e parte da Zona Norte.
Desigualdade e domínio armado caminham juntos
O estudo também demonstra que:
- As rendas per capita são menores em áreas dominadas.
- A proporção de moradores não brancos é maior.
Esses fatores reforçam a sobreposição entre vulnerabilidade econômica, desigualdade racial e ausência de serviços públicos.
Domínio armado já integra a dinâmica urbana
Para os pesquisadores, o crime armado se tornou parte estrutural das relações territoriais da metrópole.
Assim, eles defendem que a compreensão do problema exige políticas que ultrapassem a segurança pública e incluam urbanização, redução de desigualdades e fortalecimento de serviços estatais.