Tomaz Silva/Agência Brasil
Neste sábado (24), completaram-se três anos da operação considerada a segunda mais letal do Rio de Janeiro, que deixou 23 mortos na Vila Cruzeiro. A ação conjunta das polícias Militar e Rodoviária Federal, realizada em maio de 2022, permanece sem respostas definitivas da Justiça.
Apesar da gravidade do caso, o Ministério Público e a Polícia Civil ainda não concluíram as investigações. Gabrielle Cunha, cabeleireira de 41 anos, morreu dentro de casa por um tiro disparado a longa distância. Até hoje, o caso não teve denúncia apresentada.
A Promotoria Militar Estadual alegou que não houve desvio de conduta por parte dos policiais. Ainda assim, 16 das 23 vítimas não tinham passagem pela polícia. Entre elas, o ex-militar da Marinha Douglas Costa Inácio Donato, 23, pai de um bebê de dois meses, morto durante a ação.
Presença do tráfico aumenta e leva medo à comunidade
A Vila Cruzeiro, parte do Complexo da Penha, tornou-se abrigo para criminosos de fora do estado. Segundo a Polícia Federal, Emílio Carlos Gongorra Castilho, conhecido como Cigarreira, figura ligada ao PCC, estaria entre os traficantes refugiados na comunidade. Ele é apontado como mandante da execução de Antônio Vinícius Gritzbach, ex-integrante do PCC morto no aeroporto de Guarulhos.
A presença de Cigarreira teria sido notada em bailes locais como o “Selva”, em homenagem ao traficante Doca — morto em confronto e hoje exaltado por membros da facção.
De acordo com relatório da Polícia Federal, Doca era responsável por administrar planilhas de pagamento do tráfico e revisar ordens emitidas por lideranças. Uma dessas mensagens, assinada por Naldinho, orientava a redução de roubos durante a visita do G20 ao Rio. O documento aponta que, após a disseminação do texto, os roubos de veículos caíram 6,7% em uma semana.
Gerente do tráfico é preso em Copacabana
Na sexta-feira (19), a polícia prendeu em um quiosque da Praia de Copacabana um homem apontado como gerente do tráfico na Vila Cruzeiro. Ele era foragido da Justiça do Espírito Santo e integrava o Comando Vermelho. Após a prisão, ele revelou que controlava dois pontos de venda de drogas no Complexo da Penha.
O criminoso vinha sendo monitorado pelo setor de inteligência do 19º BPM (Copacabana). Após ser capturado, foi levado ao batalhão e permanece à disposição da Justiça.
Clima de medo e silêncio
O medo predomina entre os moradores da Vila Cruzeiro. Muitos evitam comentar sobre as mortes ocorridas na operação. Familiares das vítimas relatam pressão para não buscarem justiça, sob risco de retaliações.
“Disseram que ele morreu como herói. Mas atiraram pelas costas, e ele estava desarmado”, relatou o parente de uma das vítimas, sob anonimato.
Uma moradora de 41 anos deixou a favela no ano passado após ser ameaçada. “Apenas respondi ‘bom dia’ a um policial. O tráfico entendeu como traição. Hoje trabalho como ambulante para pagar um apartamento no centro”, contou.
Delegados alegam que decisões judiciais facilitaram a expansão do tráfico. Especialistas, no entanto, rebatem a tese e pedem foco em inteligência e políticas públicas de segurança.
Fontes:
folha.uol.com.br
cnnbrasil.com.br