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Estudo da UFRJ e UVA aponta que 8,5% das mortes infantis em Bangu e Santa Cruz poderiam ser evitadas com ar mais limpo.

Instalações da antiga CSA (Companhia Siderurgica do Atlantico) em Santa Cruz, no Rio de
Janeiro – Bruno Gonzalez/Agência O Globo

A poluição atmosférica mata silenciosamente na Zona Oeste do Rio. Um estudo inédito, realizado por pesquisadores da UFRJ e da UVA, revelou que 8,5% das mortes de crianças com até cinco anos em Bangu e Santa Cruz, durante 2023, poderiam ter sido evitadas se o ar estivesse dentro dos limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A análise, publicada no último dia 11 no Bulletin of Environmental Contamination and Toxicology, utilizou dados do sistema EpiRio e mediu a concentração do poluente PM 2.5 em diferentes pontos da região. Os números chocam: em mais da metade dos dias analisados, o ar ultrapassou o limite considerado seguro.

Indústrias e veículos lideram a emissão de poluentes

Os bairros estudados concentram polos industriais, siderúrgicas e tráfego intenso. Por isso, as emissões se mantêm altas. A presença constante de material particulado fino (PM 2.5) no ar, que penetra profundamente nos pulmões e afeta a corrente sanguínea, agrava doenças respiratórias — sobretudo em crianças pequenas, mais vulneráveis por ainda estarem com o sistema imunológico em formação.

Além disso, queimadas e a circulação de massas de ar oriundas de Itaguaí e Seropédica ampliam o alcance da poluição. A estação Adalgisa Nery, por exemplo, registrou concentrações acima do limite da OMS em 87% dos dias secos.

População pobre e negra é a mais afetada

A coordenadora de projetos do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, Ana Luisa Queiroz, denuncia um padrão de injustiça: “Estamos diante de racismo ambiental. As áreas mais afetadas concentram população negra e empobrecida.”

Ela exige responsabilização das indústrias e políticas públicas efetivas. Sem isso, segundo ela, não haverá justiça ambiental nem social na cidade do Rio de Janeiro.

Autoridades reconhecem, mas ações seguem tímidas

A Secretaria Municipal de Saúde reconheceu a gravidade do estudo e afirmou manter protocolos específicos para tratar doenças respiratórias em crianças. No entanto, o município não inclui as emissões do polo industrial nas metas de redução de gases do efeito estufa, sob a justificativa de que não exerce controle sobre as atividades das empresas.

O Plano Municipal de Desenvolvimento Sustentável prevê cortar 20% das emissões até 2030, mas desconsidera os maiores poluidores da Zona Oeste.

Empresas negam irregularidades, mas dados contradizem

A Ternium Brasil, maior siderúrgica da região, informou que investiu R$ 450 milhões em melhorias ambientais desde 2017 e que mantém três estações de monitoramento em Santa Cruz. Apesar disso, as estações sob sua responsabilidade registraram médias de PM 2.5 muito acima do limite da OMS: 52,1 µg/m³ na Adalgisa Nery e 48,5 µg/m³ no Largo do Bodegão.

A empresa afirmou que os dados completos dos poluentes indicam qualidade do ar “boa ou moderada” e que está construindo uma escola técnica na região.

A Associação das Empresas do Distrito Industrial de Santa Cruz, que representa 15 companhias — entre elas Gerdau, Ball, Etex, Furnas e Casa da Moeda — declarou seguir a legislação nacional. No entanto, o padrão brasileiro permite concentrações mais altas e só planeja se alinhar à OMS em 2044.

Conclusão: poluição mata e cobra urgência

O estudo reforça o que moradores sentem todos os dias: a qualidade do ar na Zona Oeste do Rio de Janeiro está longe do aceitável. E as consequências são fatais, especialmente para as crianças. A inércia do poder público e o discurso genérico das indústrias mantêm um ciclo tóxico e injusto.

Fonte: folha.uol.com.br

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