A Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, alcançou o maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do Brasil, impulsionada pelos royalties do petróleo. Em 2024, o município arrecadou cerca de R$ 2 bilhões, valor que financiou quase 80% das despesas públicas. Apesar da abundância de recursos, moradores de bairros periféricos ainda convivem com saneamento precário, falta de pavimentação e desigualdade social, evidenciando o contraste entre arrecadação recorde e qualidade de vida.
Riqueza impulsionada pelo petróleo
O PIB per capita de Saquarema chegou a R$ 722.441,52, número 13 vezes superior à média nacional e resultado de um crescimento superior a 3.000% desde 2010. A exploração de petróleo na Bacia de Santos transformou o município em um dos maiores recebedores de royalties do país.
Somente em 2024, os repasses saltaram de R$ 5,8 milhões em 2010 para mais de R$ 2 bilhões, consolidando o petróleo como principal fonte de receita do município.
Contrastes sociais e infraestrutura deficiente
Apesar do cenário econômico favorável, a renda média da população permanece baixa, em torno de R$ 2.300 mensais, abaixo da média estadual e nacional. Em bairros como Engenho Grande, Vilatur e Madressilva, moradores relatam esgoto a céu aberto, ruas sem asfalto e alagamentos frequentes.
Na Avenida dos Brilhantes, por exemplo, a falta de pavimentação agrava a situação durante períodos de chuva, provocando perdas materiais e a saída de famílias antigas da região.
Avanços em educação e saúde
A prefeitura afirma que parte significativa dos royalties tem sido direcionada para educação e saúde. Atualmente, cinco complexos educacionais estão em construção no município. Além disso, programas como Educa Saquá garantem auxílio financeiro mensal de R$ 250 a R$ 300 por criança matriculada na rede pública.
Na área da saúde, o número de unidades saltou de 24 para 53 desde 2017. Moradores reconhecem avanços no acesso a consultas, embora ainda relatem demora em atendimentos especializados.
Dependência dos royalties preocupa especialistas
Especialistas alertam que a dependência excessiva do petróleo representa um risco para o futuro econômico da cidade. O economista Roberto Kanter destaca que os royalties são uma fonte volátil e finita.
Segundo ele, Saquarema precisa investir em diversificação econômica, com incentivo ao empreendedorismo, atração de empresas e fortalecimento da atividade produtiva local. O objetivo é garantir sustentabilidade econômica quando a exploração de petróleo entrar em declínio.
Saneamento básico segue como desafio
O saneamento é apontado como um dos principais gargalos. Embora concessionárias afirmem que 78% a 90% da população será atendida até 2038, moradores relatam que valões, canais e lagoas ainda recebem esgoto sem tratamento.
A situação afeta diretamente a Lagoa de Saquarema, cartão-postal do município, e levanta questionamentos sobre as prioridades na aplicação dos recursos públicos.
Planejamento e legado para o futuro
Para reduzir a dependência dos royalties, a prefeitura afirma que trabalha para diminuir esse índice para 71% do orçamento em 2025, além de investir em turismo, tecnologia e qualificação profissional. Projetos como a Cidade da Educação e a futura faculdade de Inteligência Artificial fazem parte dessa estratégia.
O desafio, segundo especialistas e moradores, é transformar a riqueza temporária do petróleo em infraestrutura duradoura, saneamento universal e desenvolvimento social equilibrado.