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A história da Independência também passa pelas ruas, igrejas e edifícios do Rio onde D. Pedro tomou decisões que ajudaram a definir o futuro do Brasil

Quando se fala em Independência do Brasil, a imagem mais lembrada é a do grito de “Independência ou Morte”, às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo, no dia 7 de setembro de 1822. Mas a construção da independência brasileira começou muito antes — e o Rio de Janeiro foi um dos principais cenários políticos desse processo.

A cidade já ocupava uma posição estratégica desde 1763, quando se tornou sede do Vice-Reinado do Brasil. Em 1815, ganhou ainda mais importância ao se tornar capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, durante o reinado de D. João VI.

Foi nesse ambiente que passaram a circular novas ideias políticas, jornais e movimentos que questionavam a relação entre Brasil e Portugal.

Segundo o historiador da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Douglas Liborio, compreender a Independência exige olhar para além do episódio ocorrido às margens do Ipiranga.

“Olhar para além do grito é buscar uma história que conte algo a mais do que os ‘grandes feitos’ de nomes de envergadura da nossa história política. Pensar nas ruas e espaços do Rio é, de certa forma, pensar em como cada linha da história do nosso país foi escrita, entre edifícios, ruas, tumultos, conciliações e efervescência política.”

A Independência começou antes de 1822

A separação de Portugal não aconteceu de forma repentina. Ao longo das décadas anteriores, diferentes movimentos demonstravam a circulação de ideias iluministas e de contestação ao domínio português.

Entre eles estavam a Conjuração Mineira, em 1789, que envolveu Vila Rica e também o Rio de Janeiro; a Conjuração Baiana, de 1798; e a Revolução Pernambucana, de 1817.

A situação política mudou ainda mais depois da Revolução Liberal do Porto, em 1820. Pressionado pelas Cortes portuguesas, D. João VI retornou a Portugal em 1821 e deixou seu filho, D. Pedro, como Príncipe Regente no Brasil.

A sede do governo permanecia no Rio de Janeiro, que passou a concentrar parte importante das disputas sobre o futuro político do país.

Jornais como o Correio do Rio de Janeiro e o Revérbero Constitucional Fluminense ajudavam a espalhar ideias favoráveis à separação de Portugal e discutiam temas como a criação de uma Constituição e os caminhos que o Brasil deveria seguir.

O Dia do Fico aconteceu no coração do Rio

Um dos momentos decisivos ocorreu em janeiro de 1822.

Nos primeiros dias daquele mês, moradores do Rio foram convocados por meio de um anúncio impresso a comparecer à Rua da Ajuda, nº 137, para assinar uma petição em defesa da permanência de D. Pedro no Brasil.

No dia 9 de janeiro, uma comitiva liderada por José Clemente Pereira, presidente do Senado da Câmara, saiu da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, na atual Rua Uruguaiana, em direção ao encontro com o Príncipe Regente.

O grupo carregava uma petição com cerca de oito mil assinaturas.

A resposta de D. Pedro entraria para a história:

“Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Diga ao povo que fico.”

A declaração foi feita no Paço da Cidade, atual Paço Imperial, no Centro do Rio.

Mais de dois séculos depois, a memória do episódio ainda está presente na região. Uma placa esculpida por Rodolfo Bernardelli foi instalada na fachada da igreja em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência.

A própria janela do Paço Imperial de onde D. Pedro comunicou sua decisão também foi preservada. Atualmente, sua grade está exposta no Museu Histórico Nacional.

Do Rio nasceu parte do novo Império

A Independência foi acompanhada pela construção das instituições do novo Estado brasileiro. E o Rio voltou a ocupar posição central nesse processo.

Em 12 de outubro de 1822, D. Pedro foi aclamado Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil em uma cerimônia realizada no Campo de Santana, atual Praça da República.

Pouco depois, em 1º de dezembro, foi sagrado e coroado como D. Pedro I na Capela Real e Imperial, atual Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, na Rua Primeiro de Março.

A separação, porém, ainda não estava completamente consolidada.

Em maio de 1823, foi instalada uma Assembleia Constituinte no local onde hoje fica o Palácio Tiradentes. O objetivo era elaborar a primeira Constituição brasileira.

Enquanto isso, conflitos ainda aconteciam em outras partes do território. Na Bahia, a Guerra de Independência terminou em 2 de julho de 1823, com a derrota das tropas portuguesas que resistiam à separação.

A memória desses personagens também chegou às ruas do Rio. Durante as comemorações do Centenário da Independência, em 1922, ruas de Ipanema receberam nomes ligados à Guerra de Independência da Bahia, como Maria Quitéria, Joana Angélica, Barão de Jaguaripe, Visconde de Pirajá e Garcia D’Ávila.

O lugar onde nasceu o Parlamento brasileiro

No Centro do Rio, o atual Palácio Tiradentes guarda uma relação direta com esse período.

Antes da construção do edifício atual, o local era ocupado pela Casa de Câmara e Cadeia, um importante espaço da administração colonial.

Após a Independência, o prédio passou por adaptações para receber a Assembleia Constituinte de 1823.

Foi ali que aconteceram debates entre os parlamentares e D. Pedro I sobre os limites e as prerrogativas dos diferentes poderes.

O conflito chegou ao ápice em 12 de novembro de 1823, durante a chamada Noite da Agonia, quando tropas do imperador invadiram o recinto e a Assembleia Constituinte foi dissolvida.

O espaço voltaria a receber o Legislativo Imperial em 1826, quando a Câmara dos Deputados iniciou suas atividades no Rio de Janeiro.

Décadas depois, o Palácio Tiradentes seria construído no mesmo local e inaugurado em 1926, reforçando a memória da tradição parlamentar brasileira.

A própria arquitetura do edifício faz referência a esse período. Na fachada, o grupo escultórico “Independência”, realizado por Modestino Kanto, Armando Magalhães Corrêa e Hildegardo Leão Velloso, apresenta D. Pedro I caracterizado como um general romano, ao lado de José Bonifácio, o Patriarca da Independência, e da alegoria da Liberdade.

No interior, a história do país também aparece representada. No Plenário Barbosa Lima Sobrinho, uma das pinturas do ciclo “Os pontos cardeais da história do Brasil”, ao redor do vitral da cúpula, é intitulada “A Monarquia”.

A obra reúne referências a personagens e acontecimentos importantes para a formação do Estado brasileiro, incluindo D. Pedro I no momento do Grito do Ipiranga e José Bonifácio.

Portugal reconheceu a Independência em 1825

A consolidação política do novo país continuou nos anos seguintes.

Em 1824, D. Pedro I outorgou a primeira Constituição do Brasil. A Carta estabeleceu um Parlamento bicameral, formado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado.

As atividades parlamentares tiveram início no Rio de Janeiro em 6 de maio de 1826. Em 2026, portanto, o Parlamento brasileiro completa 200 anos de funcionamento.

Em 1825, Portugal reconheceu oficialmente a Independência do Brasil por meio do Tratado do Rio de Janeiro, com mediação da Inglaterra.

O reconhecimento envolveu também um custo financeiro para o novo país. O Brasil assumiu uma indenização de dois milhões de libras esterlinas a Portugal, relacionada, entre outros fatores, à permanência no Brasil de bens e acervos trazidos pela Corte portuguesa durante sua transferência para o país, em 1808.

Uma independência que também passa pelo Rio

Mais de dois séculos depois, o 7 de setembro continua sendo associado principalmente ao gesto de D. Pedro às margens do Ipiranga.

Mas a história da Independência brasileira é muito maior.

Ela passa pelas ruas do Centro do Rio, pela petição que levou milhares de pessoas a defender a permanência de D. Pedro, pelos jornais que discutiam o futuro político do país, pelo Paço Imperial, pelas cerimônias de aclamação e coroação e pelos primeiros debates constitucionais.

Passa também pelo local onde hoje está o Palácio Tiradentes, testemunha de diferentes momentos da formação política brasileira.

O Rio de Janeiro foi, portanto, muito mais do que um cenário secundário nesse processo. Foi a cidade onde algumas das decisões mais importantes que antecederam e sucederam o 7 de setembro de 1822 foram tomadas.

Da decisão de D. Pedro de permanecer no Brasil à formação das primeiras instituições do Império, a história da Independência também foi escrita nas ruas do Rio.

Conteúdo histórico: pesquisa e levantamento realizados por Douglas Liborio, historiador da Alerj, com base em registros do Diário do Rio de Janeiro (1822), O Paiz (1922) e obras de José Murilo de Carvalho, Lúcia Maria Bastos Neves, Armelle Enders e José Theodoro Mascarenhas Menck.

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