Quem caminha pelo Centro do Rio provavelmente já passou pela Rua do Ouvidor, Rua da Quitanda, Rua dos Andradas ou Rua da Carioca sem imaginar que esses nomes guardam pistas de uma cidade completamente diferente.
Antes de mapas detalhados, placas padronizadas e sistemas de endereçamento modernos, os nomes dos logradouros ajudavam os moradores a identificar os lugares. Por isso, muitas ruas acabaram recebendo nomes relacionados às atividades comerciais, às pessoas que viviam ali, às instituições próximas ou às características daquele trecho da cidade.
E algumas dessas denominações atravessaram séculos.
Quando a profissão virava nome de rua
Um dos exemplos mais interessantes está no próprio Centro.
A atual Rua Gonçalves Dias já foi conhecida como Rua dos Latoeiros. O nome fazia referência aos latoeiros, trabalhadores que produziam e consertavam objetos de lata e outros metais.
Em 1865, a denominação foi substituída por Gonçalves Dias, em homenagem ao poeta brasileiro.
Algo semelhante aconteceu com a antiga Rua dos Ourives, que recebeu esse nome por causa da atividade de ourivesaria concentrada no local. A rua passou a se chamar Rua Miguel Couto em 1936.
Ou seja: antes de homenagear personagens famosos, alguns endereços simplesmente contavam o que o carioca encontraria quando chegasse ali.
E a Rua da Quitanda?
O nome parece curioso para quem conhece apenas a cidade atual.
Mas a explicação está justamente na atividade comercial. A palavra “quitanda” estava relacionada ao comércio de gêneros alimentícios e produtos vendidos no cotidiano.
A rua mantém atualmente essa denominação, embora tenha passado por uma mudança temporária: em 1888, foi chamada de Rua João Alfredo, retornando ao nome Rua da Quitanda em 1890.
A rua também fazia parte de uma área comercial importante do Rio imperial. No século XIX, a Livraria Universal, da editora E. & H. Laemmert, funcionava ali e se tornou uma das principais casas editoras brasileiras.
A Rua da Alfândega entrega a própria história
Nesse caso, quase não é preciso procurar uma explicação escondida.
A Rua da Alfândega recebeu esse nome por causa da função que aquela região exercia no antigo Rio.
A área próxima ao porto era utilizada para o escoamento das mercadorias que chegavam de navio. Era ali que produtos eram vistoriados e conferidos pela alfândega.
Segundo registros históricos da cidade, a rua recebeu essa denominação em 1716.
Séculos depois, o nome continua sendo uma lembrança direta da relação entre aquela região e o comércio marítimo.
E existe uma curiosidade: a região que hoje conhecemos como Saara está diretamente ligada à Rua da Alfândega. O nome SAARA surgiu na década de 1960, a partir da Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega.
A Rua do Ouvidor recebeu o nome de um homem
Talvez uma das ruas mais famosas do Rio tenha uma origem menos óbvia.
A atual Rua do Ouvidor já teve outras denominações ao longo da história. Segundo registros da Prefeitura, a via teria começado como “Desvio do Mar” e posteriormente recebeu o nome relacionado ao ouvidor da comarca Francisco Breguó da Silveira, chegado de Lisboa em 1780.
O nome acabou sobrevivendo ao próprio personagem.
E a rua se tornou uma das mais importantes da cidade no século XIX. Por volta de 1820, comerciantes e modistas começaram a ocupar o endereço, seguidos por perfumistas, cabeleireiros e outros estabelecimentos.
Jornais, livrarias, cafés e lojas também transformaram a Rua do Ouvidor em um dos grandes pontos de encontro da sociedade carioca.
Já existiu uma Rua do Piolho no Rio
Essa talvez seja uma das histórias que mais parecem inventadas.
Mas a Rua do Piolho realmente existiu.
Ela corresponde à atual Rua da Carioca. A antiga denominação foi alterada em 1848.
O curioso é que a rua também estava relacionada ao abastecimento de água da região. Segundo a Brasiliana Fotográfica, a antiga Rua do Piolho era uma passagem importante para quem buscava água no chafariz do Largo da Carioca. Com o tempo, passou a ser conhecida também como Rua da Carioca.
É um exemplo de como um nome pode desaparecer enquanto outro, inicialmente usado em paralelo, acaba prevalecendo.
E o Rio já teve uma Rua das Belas Noites
Nem todos os nomes antigos tinham relação com comércio ou personagens.
Alguns descreviam a própria paisagem.
A atual Rua Pablo Duarte, na região do Passeio Público, já foi chamada de Rua das Belas Noites e também de Rua das Marrecas.
Registros históricos associam o antigo nome “Belas Noites” ao panorama que a rua oferecia em noites de luar. A via surgiu durante intervenções urbanas realizadas no período do vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa.
É um exemplo de como a experiência cotidiana também podia batizar um endereço.
As ruas mudavam de nome e algumas mudaram várias vezes
Se hoje parece estranho encontrar uma rua com um nome aparentemente sem sentido, o problema aumenta quando se descobre que aquele endereço pode ter tido três, quatro ou até mais denominações diferentes.
A antiga Rua da Direita, por exemplo, corresponde à atual Rua Primeiro de Março.
A Rua Matacavalos tornou-se a atual Rua do Riachuelo.
A Rua do Sacramento corresponde à atual Avenida Passos.
E a antiga Rua dos Latoeiros virou Gonçalves Dias.
Essas mudanças acompanharam transformações políticas, homenagens, reformas urbanas e novas formas de organizar a cidade.
Os nomes contam como o Rio funcionava
É por isso que caminhar pelo Centro do Rio pode ser quase como percorrer um mapa de profissões e atividades do passado.
Ourives. Latoeiros. Alfândega. Quitanda.
Cada palavra revela uma parte da dinâmica urbana de outras épocas.
O nome de uma rua podia indicar onde determinado grupo de trabalhadores se concentrava, onde mercadorias eram comercializadas ou qual instituição tinha importância naquela região.
Com o crescimento da cidade, muitos desses nomes foram substituídos por homenagens a políticos, militares, escritores e outras personalidades.
Mas alguns permaneceram.
O Rio atual ainda carrega o mapa da cidade antiga
Talvez seja justamente isso que torne os nomes das ruas cariocas tão interessantes.
Eles não são apenas endereços.
São vestígios de uma cidade que já desapareceu.
Quando alguém atravessa hoje a Rua da Alfândega, passa pela Rua do Ouvidor ou caminha pela Rua da Quitanda, está usando nomes que nasceram de outras relações urbanas, outros trabalhos e outros modos de viver.
Alguns nomes sobreviveram por centenas de anos. Outros desapareceram completamente.
E, em muitos casos, basta olhar para a placa de uma rua para descobrir que o Rio de Janeiro de hoje ainda carrega, escondido em seus endereços, o mapa de uma cidade muito mais antiga.