Muito antes dos complexos dentro de shopping centers, grandes salas de exibição estavam espalhadas pelas ruas do Rio de Janeiro. Algumas tinham milhares de lugares, fachadas monumentais, decoração em estilo art déco e até apresentações musicais antes das sessões.
A cidade chegou a ter mais de 170 cinemas de rua distribuídos por diferentes regiões. Com o passar das décadas, porém, muitos fecharam, foram demolidos ou ganharam novas funções. Outros conseguiram sobreviver e continuam ligados à memória cultural carioca.
Quando o cinema chegou às ruas do Rio
A relação do Rio com o cinema começou muito cedo. Em 1896, a primeira exibição de um filme no Brasil aconteceu na Rua do Ouvidor.
Poucos anos depois, começaram a surgir os primeiros espaços dedicados às projeções. Entre eles estavam o Cine Pathé, na antiga Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, e o Cinema Íris, na Rua da Carioca.
Naquele período, uma ida ao cinema podia incluir muito mais do que um filme. As salas também recebiam shows de variedades e apresentações de teatro de revista.
A Cinelândia virou o grande endereço do cinema
Foi na década de 1920 que a região da Praça Floriano ganhou uma concentração tão grande de salas que passou a ser conhecida como Cinelândia.
Cinemas como o Odeon, Capitólio e Riachuelo transformaram a área em um dos principais pontos de encontro da cidade. Ir ao cinema fazia parte da vida social do Centro e atraía diferentes públicos.
O Capitólio, por exemplo, foi inaugurado em 1925. O prédio foi projetado pelo engenheiro Emílio Baumgart e chegou a mudar de nome para Cine Teatro Broadway antes de voltar a se chamar Capitólio. A última sessão aconteceu em 1971. Depois, o espaço deu lugar a um centro comercial.
O Odeon atravessou um século
Entre os antigos cinemas da Cinelândia, o Odeon é o grande sobrevivente.
O atual Cine Odeon foi inaugurado em 1926 e completou cem anos em 2026. Hoje, é o último cinema de rua da região da Cinelândia ainda em funcionamento regular.
Mas a história do nome é ainda mais antiga. Um antigo Odeon já funcionava na então Avenida Central no início do século XX. Foi justamente nesse espaço que o compositor Ernesto Nazareth tocou durante anos na sala de espera.
A relação foi tão marcante que Nazareth compôs, em 1910, o famoso choro “Odeon”, inspirado no cinema.
A Tijuca também teve sua própria Cinelândia
O fenômeno não ficou restrito ao Centro.
Durante boa parte do século XX, a Tijuca concentrou tantas salas que ganhou o apelido de “Segunda Cinelândia Carioca”.
A região da Praça Saens Peña se tornou especialmente conhecida pelos cinemas. Entre eles estava o Cine-Teatro Olinda, inaugurado em 1940 e que chegou a ser considerado o maior cinema da cidade, com capacidade para cerca de 3,5 mil pessoas.
O cinema foi demolido em 1972. Hoje, o local é ocupado pelo Shopping 45.
Outro destaque era o Cine Metro-Tijuca, considerado durante muito tempo um dos cinemas mais elegantes da praça. O espaço tinha ar-condicionado quando isso ainda era uma novidade e recebia diferentes atrações além dos filmes. Atualmente, o imóvel abriga uma loja.
O Cine-Teatro América, aberto em 1918, também marcou a história do bairro. Funcionou até 1997 e suas antigas instalações hoje são ocupadas por uma unidade das Drogarias Pacheco.
Em Copacabana, os cinemas acompanharam a transformação do bairro
Na Zona Sul, Copacabana também construiu uma forte tradição cinematográfica.
Entre os grandes cinemas que marcaram a Avenida Nossa Senhora de Copacabana estavam o Roxy, Rian e Metro. Eles ajudaram a transformar a região em um importante polo de entretenimento a partir das décadas de 1930 e 1940.
O Roxy foi inaugurado em 1938 e durante décadas recebeu grandes lançamentos e apresentações de variedades. O cinema passou por reformas e chegou a ser dividido em três salas, mas encerrou suas atividades como cinema em 2021.
O endereço, porém, não ficou abandonado.
Em 2024, o espaço foi reaberto como Roxy Dinner Show, transformando o antigo cinema em uma casa dedicada a jantar, música e entretenimento.
É um exemplo de como alguns antigos cinemas desapareceram como salas de exibição, mas seus edifícios continuaram fazendo parte da paisagem cultural da cidade.
E quando o cinema fechava?
Nem todos tiveram o mesmo destino.
O Cine Vitória, na Cinelândia, foi inaugurado em 1942 e viveu décadas de grande movimento. A partir dos anos 1970, porém, começou a enfrentar as dificuldades que atingiram boa parte dos cinemas de rua: crescimento da televisão, expansão dos shopping centers, mudanças no Centro e aumento da violência urbana.
Nos últimos anos de funcionamento, chegou a exibir filmes adultos. Fechou definitivamente em 1993.
O imóvel permaneceu abandonado durante um período e posteriormente foi reformado. Em 2012, recebeu uma unidade da Livraria Cultura. A restauração preservou elementos do antigo cinema, incluindo piso, balcões, bilheterias, mármores e detalhes da fachada.
Outro exemplo é o antigo Cine Palácio, na Rua do Passeio.
O espaço ficou marcado por um momento histórico do cinema brasileiro: em 1929, recebeu a primeira exibição pública de um filme sonoro no Brasil, “Melodia da Broadway”, diante de uma plateia que incluía o então presidente Washington Luís.
Décadas depois, o cinema foi transformado no Teatro Riachuelo, preservando o imóvel e dando a ele uma nova função cultural.
Por que tantos cinemas desapareceram?
A transformação foi resultado de vários fatores.
A partir das décadas de 1970 e 1980, os hábitos de consumo começaram a mudar. A televisão ganhou espaço, os shopping centers passaram a concentrar novas salas de cinema e o Centro do Rio enfrentou transformações urbanas e econômicas.
Os antigos cinemas também tinham custos elevados de manutenção e grandes espaços que nem sempre eram fáceis de adaptar às novas exigências do mercado.
A consequência foi uma mudança completa na geografia do cinema carioca: os grandes palácios de uma única sala deram lugar a complexos menores e, cada vez mais, aos multiplex instalados em centros comerciais.
Mas alguns ainda resistem
Apesar do desaparecimento de muitas salas históricas, os cinemas de rua não desapareceram completamente.
O próprio Odeon continua funcionando na Cinelândia. Em Botafogo, o Estação Claro Rio mantém uma programação que combina lançamentos e produções do circuito independente. Outros espaços também continuam ligados à tradição de assistir a filmes fora dos shoppings.
A história desses cinemas mostra uma transformação maior da própria cidade.
Durante décadas, assistir a um filme significava caminhar por uma avenida, encontrar amigos na calçada, passar por uma bilheteria iluminada e ocupar o espaço público antes e depois da sessão.
Alguns prédios desapareceram. Outros mudaram de função. Alguns ainda exibem filmes.
Mas as antigas fachadas, os nomes e as histórias deixadas por essas salas continuam ajudando a contar como o Rio se divertia — e como a cidade mudou ao longo de mais de um século.