Hoje, subir a serra até Petrópolis faz parte da rotina de quem circula entre a Região Metropolitana e a Região Serrana do Rio. Carros, ônibus e caminhões vencem a Serra da Estrela diariamente por estradas modernas. Mas, há quase dois séculos, chegar ao alto da serra era uma viagem completamente diferente.
No início do século XIX, a Serra da Estrela representava uma grande barreira para quem precisava seguir em direção ao interior. O desnível ultrapassava mil metros e os caminhos existentes eram formados principalmente por trilhas e passagens estreitas, adequadas sobretudo ao deslocamento de tropas de mulas. O antigo Caminho Novo, aberto no início do século XVIII para facilitar a ligação com a região das Minas Gerais, passava pela serra, mas estava longe de oferecer condições para carruagens.
A situação começou a mudar quando a região passou a despertar o interesse da família imperial. Dom Pedro I havia adquirido a Fazenda do Córrego Seco, na Serra da Estrela, em 1830. Anos depois, a propriedade passou para Dom Pedro II, que retomou a ideia de estabelecer ali uma residência de verão. Para que o projeto fosse possível, porém, era necessário primeiro resolver um problema básico: como chegar até o alto da serra com mais facilidade?
Foi nesse contexto que surgiu a Estrada Normal da Serra da Estrela.
Em 1841, Dom Pedro II encarregou o engenheiro alemão Júlio Frederico Koeler de construir um novo caminho entre o Porto da Estrela, na região da atual Magé, e a Fazenda do Córrego Seco. A proposta era criar uma estrada capaz de permitir o trânsito de carruagens pela serra, substituindo o antigo caminho utilizado principalmente por tropas de animais.
A construção ganhou importância ainda maior com o projeto de criação de Petrópolis. As obras da nova povoação começaram em 1843, e a estrada passou a ser uma das estruturas fundamentais para conectar a futura cidade ao restante da província. Registros do Museu Imperial indicam que a estrada começou a ser aberta na década de 1830 e teve intenso movimento até a chegada da ferrovia à serra, em 1883.
O percurso entre a Raiz da Serra e Petrópolis tinha aproximadamente 14 quilômetros. Para quem vinha do Rio de Janeiro, a viagem ainda envolvia diferentes etapas: era possível seguir por embarcação até a região do Porto de Mauá, continuar de trem até a Raiz da Serra e, dali, subir de diligência pela Estrada Normal da Serra da Estrela.
A estrada não era apenas uma obra para facilitar as viagens da família imperial. Ela tinha também enorme importância econômica. O Porto da Estrela era um ponto estratégico de circulação de pessoas e mercadorias e fazia parte das antigas rotas que conectavam o litoral ao interior. Melhorar a passagem pela serra significava facilitar o transporte e aproximar Petrópolis de outras regiões.
E a mudança foi significativa.
Com uma estrada preparada para carruagens, a subida da serra se tornou muito mais acessível. Diligências passaram a fazer regularmente o trajeto, levando passageiros e mercadorias até Petrópolis. A cidade, que começava a ser planejada naquele período, ganhou uma conexão fundamental com o Rio de Janeiro e com a Baixada.
A própria Prefeitura de Petrópolis destaca a Estrada Normal da Serra da Estrela como a primeira estrada de rodagem de montanha do Brasil, um dos marcos da história da cidade e da engenharia viária brasileira.
A estrada que preparou o caminho para a ferrovia
A história da Estrada Normal não terminou quando surgiram novas tecnologias de transporte. Pelo contrário: ela acabou fazendo parte de uma sequência de transformações que mudaram completamente a viagem para Petrópolis.
Em 1854, foi inaugurada a Estrada de Ferro Mauá, considerada a primeira ferrovia do Brasil, ligando o Porto Mauá à Raiz da Serra. A partir dali, o viajante podia combinar diferentes meios de transporte: barco, trem e, finalmente, diligência pela Estrada Normal até Petrópolis.
Quase três décadas depois, outra revolução chegou à região. Em 1883, foi inaugurada a Estrada de Ferro Príncipe do Grão-Pará, que utilizava um sistema de cremalheira para vencer a Serra da Estrela e chegar a Petrópolis. Com isso, as diligências deixaram de ser o principal meio de transporte para vencer a parte mais difícil da subida.
A antiga estrada, entretanto, permaneceu como testemunha dessa transformação.
Hoje, alguns trechos da chamada Estrada Velha da Estrela ainda podem ser percorridos. O caminho que um dia foi essencial para carruagens e diligências acabou se tornando um registro físico de uma época em que vencer a Serra da Estrela era uma verdadeira obra de engenharia e uma etapa decisiva de qualquer viagem até Petrópolis.
Antes da estrada, a serra era o obstáculo. Depois dela, virou caminho.
A história da Estrada Normal da Serra da Estrela ajuda a entender que Petrópolis não surgiu isolada no alto da montanha. A cidade só conseguiu se desenvolver e se conectar ao restante do Rio porque, antes de palácios, hotéis e ferrovias, alguém precisou criar uma maneira de vencer a serra.
Hoje, a subida pode parecer simples. O caminho está asfaltado, os veículos são modernos e a viagem pode ser feita em pouco mais de uma hora.
Mas houve um tempo em que atravessar aquele paredão de montanhas exigia animais, carruagens, diligências e muitas horas de viagem.
E foi a Estrada Normal da Serra da Estrela que ajudou a transformar a Serra da Estrela de uma barreira em um caminho para Petrópolis.