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A professora de inglês Erica Marques Pinho, de 46 anos, prestou depoimento à Polícia Civil após aparecer em um vídeo fazendo uma saudação nazista durante o período de votação no Colégio Santo Inácio, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O episódio provocou indignação, mobilizou testemunhas e motivou o registro de uma ocorrência por injúria por preconceito.
Erica chegou à 10ª Delegacia de Polícia, em Botafogo, pouco antes das 11h. Em seguida, deixou a unidade por volta das 13h20, sem conversar com os jornalistas que aguardavam no local.
Antes do depoimento, o advogado Marcello Ramalho apresentou a versão da defesa. Segundo ele, a professora recebeu acusações de nazismo e racismo por usar uma camiseta do candidato Flávio Bolsonaro (PL) e um boné com a frase “Make America Great Again”, slogan popularizado por Donald Trump durante a campanha presidencial norte-americana de 2016.
De acordo com o advogado, Erica teria levantado o braço em tom de deboche diante das acusações. Ele também negou que o gesto representasse adesão ao racismo.
Defesa afirma que professora pretende pedir desculpas
Durante as declarações à imprensa, Marcello Ramalho afirmou que a cliente pretende pedir desculpas à comunidade judaica. Além disso, classificou os comentários atribuídos à professora durante a discussão como manifestações feitas no calor do momento.
“Ela respeita profundamente a comunidade judaica e ela vai pedir excusas à comunidade judaica”, declarou o advogado.
A defesa também sustentou que o gesto ocorreu como uma reação às acusações recebidas. Entretanto, a apuração policial deverá esclarecer as circunstâncias do episódio e avaliar os elementos apresentados pelas pessoas envolvidas.
Testemunha relata indignação após o gesto
Ian Andrade, judeu de 31 anos, gravou parte da ocorrência e relatou a indignação que sentiu ao presenciar a situação. Segundo ele, uma amiga contou que a mulher havia feito a saudação nazista na entrada do colégio.
Como não presenciou esse primeiro momento, Ian decidiu esperar a saída da eleitora para entender o que havia acontecido. Quando encontrou Erica, começou a gravar a cena e a questionou sobre o gesto.
“Eu não vou te falar medo, porque eu não tenho medo dessa gente, mas senti realmente um enjoo, um nojo”, afirmou.
O homem também disse que nunca havia vivenciado uma situação semelhante em seus 31 anos de vida como judeu. Além disso, relatou que outras pessoas presentes demonstraram indignação.
Enquanto alguns observavam a discussão, outros utilizaram os celulares para registrar o episódio. Ian afirmou que vestia uma camiseta branca, sem adesivos ou referências políticas, e que pretendia seguir para um almoço de aniversário na casa da avó.
Segundo o relato dele, a mulher não apresentou uma explicação que esclarecesse o gesto naquele momento.
Vídeo registra gesto associado ao nazismo
As imagens mostram a mulher atravessando o pátio do Colégio Santo Inácio em direção à saída. No vídeo, ela aparece levantando o braço direito estendido para a frente e ligeiramente para cima, com a mão aberta e os dedos unidos.
Esse movimento corresponde à saudação historicamente associada ao regime nazista, liderado por Adolf Hitler na Alemanha entre 1933 e 1945.
O episódio ocorreu durante o exercício do voto, circunstância que ampliou a repercussão do caso. A polícia registrou a ocorrência como injúria por preconceito, conforme as informações divulgadas sobre o episódio.
Federação Israelita do Rio condena o episódio
A Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj) divulgou uma nota de repúdio e informou que recebeu um relato acompanhado de registro em vídeo.
Segundo a entidade, a mulher teria repetido a saudação nazista, inclusive depois de ser questionada por pessoas que presenciaram a cena. A federação também relatou que, ao saber que um dos presentes era judeu, a mulher teria respondido: “Pior ainda”.
Na avaliação da Fierj, o episódio ultrapassa os limites da liberdade de expressão e afronta a dignidade humana, os valores democráticos e a memória das vítimas do nazismo.
A entidade também destacou a gravidade de uma ocorrência dessa natureza durante a votação, momento que simboliza a participação democrática da população.
Por fim, a federação informou que levou o caso ao conhecimento das autoridades policiais. Além disso, declarou que acompanhará a investigação e cobrará a identificação dos responsáveis, bem como a adoção das medidas legais cabíveis.
Saudação nazista remete à perseguição e ao Holocausto
A saudação nazista ganhou ampla utilização na Alemanha após a chegada do Partido Nazista ao poder, em 1933. Naquele período, autoridades e apoiadores do regime empregavam o gesto em cerimônias oficiais e em situações cotidianas.
Frequentemente, a saudação aparecia acompanhada da expressão “Heil Hitler”, que significa “Salve Hitler”. Com o tempo, o movimento se consolidou como um dos símbolos mais reconhecidos do nazismo.
Sob a liderança de Hitler, o regime perseguiu grupos considerados inimigos e promoveu o Holocausto. Durante esse genocídio, aproximadamente seis milhões de judeus foram assassinados de forma sistemática.
Além disso, milhões de outras pessoas sofreram perseguições, deportações, prisões e mortes provocadas pela política nazista. Por esse motivo, a saudação permanece associada à violência antissemita, ao autoritarismo e às atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial.
Investigação deve esclarecer as circunstâncias do caso
O depoimento de Erica representa uma etapa da apuração policial sobre o episódio ocorrido em Botafogo. De um lado, a defesa afirma que a professora fez o gesto para debochar das acusações e pretende pedir desculpas à comunidade judaica.
De outro, Ian Andrade relata indignação diante da cena, enquanto a Fierj cobra providências das autoridades. Dessa forma, a investigação deverá reunir os relatos e os registros disponíveis para esclarecer os fatos e orientar os próximos encaminhamentos legais.
Até o momento, as informações apresentadas não permitem antecipar uma conclusão sobre a responsabilidade criminal da mulher. Portanto, a apuração deverá considerar as circunstâncias do episódio e os elementos reunidos pelas autoridades.