Foto: Reprodução/TV Globo
A Polícia Civil do Rio de Janeiro e o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) deflagraram, nesta quarta-feira (28), a Operação Dominus. A ação investiga uma organização criminosa ligada ao Comando Vermelho (CV), suspeita de controlar a comercialização de gás de cozinha em comunidades dominadas pela facção.
As autoridades buscam desarticular um esquema que, segundo as investigações, restringia a concorrência, impunha fornecedores e cobrava taxas de comerciantes. Além disso, o grupo teria utilizado ameaças e violência para manter o controle territorial e ampliar a arrecadação.
A operação prevê o cumprimento de nove mandados de prisão e 44 mandados de busca e apreensão. Paralelamente, a Justiça determinou o bloqueio de mais de R$ 350 milhões e o sequestro de bens vinculados aos investigados.
Até a última atualização divulgada na reportagem original, quatro pessoas haviam sido presas durante o cumprimento dos mandados. Outras quatro pessoas também foram detidas em flagrante.
Suspeito apontado como articulador está entre os presos
Entre os presos está Adriano Pereira Vasconcelos Junior, conhecido como Junior Playboy. Segundo a investigação, ele atuaria como principal articulador e coordenador da estrutura criminosa responsável pela exploração comercial do gás.
O delegado Pedro Brasil afirmou que Junior Playboy mantinha uma fornecedora e obrigava empresários a comprar os produtos dessa empresa. Dessa forma, o grupo restringiria a liberdade comercial dos estabelecimentos que operavam nas áreas sob influência da facção.
“Ele tem uma fornecedora e obrigava os empresários a adquirir o gás da empresa dele”, declarou o delegado.
Segundo Pedro Brasil, o investigado também mantinha relações com integrantes de destaque do tráfico de drogas. Além disso, a polícia atribui a ele participação em uma estrutura que conectava interesses empresariais à atuação armada do Comando Vermelho.
Outro alvo da operação é Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca. As autoridades apontam Doca como uma das principais lideranças do Comando Vermelho e informam que ele está foragido por diversos crimes.
De acordo com o delegado, Junior Playboy teria ajudado Doca a escapar de uma operação policial ao reservar uma casa para ele. A investigação busca esclarecer as conexões entre os suspeitos e a estrutura criminosa investigada.
Operação alcança municípios da Região Metropolitana e bairros do Rio
Os agentes cumprem mandados em diferentes pontos do estado. As diligências abrangem São Gonçalo, Itaboraí, Duque de Caxias e Niterói, além dos bairros do Recreio dos Bandeirantes e da Taquara, na capital fluminense.
A distribuição das equipes por diferentes municípios acompanha a expansão territorial identificada durante a investigação. Inicialmente, os policiais concentraram as apurações em uma comunidade de Duque de Caxias.
Entretanto, o avanço das diligências revelou indícios de que o esquema ultrapassava os limites daquela região. Segundo o delegado Pedro Brasil, a organização teria ampliado sua atuação para diversas comunidades sob domínio do Comando Vermelho.
Como funcionava o monopólio da venda de gás
A Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD) e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MPRJ (Gaeco) conduzem a investigação.
Segundo os órgãos, a organização utilizava o domínio armado do tráfico para controlar a comercialização de gás liquefeito de petróleo (GLP), produto essencial para o preparo de alimentos nas residências.
O esquema funcionaria por meio de duas práticas principais. Primeiro, os integrantes obrigavam comerciantes a comprar botijões de fornecedores indicados pelo grupo. Em seguida, exigiam pagamentos periódicos para permitir que os estabelecimentos continuassem funcionando.
Os investigadores identificaram essas cobranças como “metas do gás”. Na prática, os valores funcionariam como uma fonte adicional de arrecadação para a organização criminosa.
Além de restringir a escolha dos fornecedores, o grupo recorreria a ameaças e atos de violência contra empresários que resistissem às exigências. Segundo a investigação, integrantes armados pressionavam os comerciantes a aceitar as condições impostas.
O delegado Pedro Brasil explicou que a estrutura apresentava dois núcleos principais: um empresarial e outro armado. Cada grupo desempenharia funções específicas para manter o controle da atividade econômica.
Núcleo empresarial controlava o fornecimento e a arrecadação
O primeiro núcleo cuidaria da distribuição de gás, da cobrança das chamadas metas e da expansão comercial para outras comunidades.
De acordo com a polícia, seus integrantes organizavam o fornecimento dos botijões e arrecadavam os valores exigidos dos comerciantes. Assim, o grupo combinaria a venda obrigatória de produtos com a cobrança de taxas.
Núcleo armado impunha as exigências
O segundo núcleo reuniria traficantes responsáveis por intimidar empresários e garantir o cumprimento das cobranças.
Segundo Pedro Brasil, integrantes desse grupo ameaçavam comerciantes e praticavam atos de violência para obrigá-los a aderir ao sistema. Além disso, a investigação identificou relatos de estabelecimentos vandalizados durante as ações de intimidação.
Essa divisão de tarefas teria permitido à organização combinar a atividade comercial com o controle territorial exercido pelo tráfico. Consequentemente, os investigadores apuram como a estrutura sustentava o monopólio e dificultava a entrada de concorrentes.
Botijão chegava a R$ 150 em algumas comunidades
A investigação também aponta consequências diretas para os consumidores. Segundo a polícia, a imposição de fornecedores e a cobrança de taxas contribuíam para elevar o preço final do gás de cozinha.
Em algumas comunidades investigadas, o botijão chegava a custar R$ 150. Esse valor evidencia o impacto potencial do esquema sobre famílias que dependem do produto para preparar suas refeições.
Além disso, a ausência de concorrência pode reduzir as opções de compra disponíveis aos moradores. Quando comerciantes não conseguem escolher livremente seus fornecedores, as condições de preço e abastecimento ficam sujeitas às exigências do grupo investigado.
O inquérito começou a partir de informações sobre a comunidade Vai Quem Quer, em Duque de Caxias. Durante as diligências, porém, os investigadores identificaram indícios de que a prática se repetia em outras áreas.
“Mas depois nós percebemos que isso não era um problema local. Ele foi se expandindo por diversas comunidades dominadas pelo Comando Vermelho”, afirmou Pedro Brasil.
Dados digitais ajudaram a reconstruir o esquema
Durante a investigação, os policiais analisaram informações armazenadas em mídias utilizadas por um dos principais investigados. Segundo a corporação, os dados ajudaram a reconstruir parte do funcionamento da estrutura criminosa.
A análise também permitiu identificar comunicações entre pessoas ligadas à atividade comercial, à arrecadação de dinheiro e ao controle territorial.
Com esses elementos, os investigadores buscaram esclarecer a divisão de funções e as relações entre os integrantes. A apuração identificou operadores comerciais, responsáveis pela logística de distribuição, arrecadadores e pessoas ligadas à estrutura armada da facção.
Esses elementos ajudam a explicar como o esquema poderia operar em diferentes comunidades. Entretanto, a extensão da participação de cada investigado depende da análise das provas reunidas pelas autoridades.
Empresas de fachada e ‘laranjas’ entram na investigação
Outro eixo da apuração envolve suspeitas de ocultação patrimonial e movimentação financeira por meio de empresas de fachada e pessoas interpostas, conhecidas como “laranjas”.
Segundo a investigação, alguns envolvidos utilizariam empresas registradas em nome de terceiros para afastar seus próprios nomes da titularidade formal de negócios e bens. Dessa maneira, a estrutura poderia dificultar a identificação dos verdadeiros beneficiários dos recursos.
Os investigadores identificaram empresas relacionadas principalmente aos setores de distribuição de gás e construção civil. A polícia apura se essas estruturas serviam para movimentar dinheiro, ocultar patrimônio e conferir aparência de legalidade aos valores obtidos.
O bloqueio judicial superior a R$ 350 milhões busca atingir o patrimônio relacionado aos investigados, conforme a decisão mencionada na reportagem original. No entanto, esse montante corresponde à medida patrimonial determinada pela Justiça, e não necessariamente ao valor já recuperado pelas autoridades.
A análise financeira deverá esclarecer a origem dos recursos, os vínculos entre as empresas e os suspeitos e a eventual participação de terceiros nas operações.
Investigação apura organização criminosa e extorsão
O inquérito investiga suspeitas de organização criminosa e extorsão relacionadas à exploração da venda de gás liquefeito de petróleo.
A apuração busca reunir provas sobre as cobranças, as ameaças contra comerciantes, o controle dos fornecedores e a possível ocultação de recursos. Além disso, os investigadores procuram esclarecer a participação de cada suspeito na estrutura.
A Operação Dominus também pretende atingir a capacidade financeira da organização investigada. Para isso, as autoridades combinam o cumprimento de mandados, a coleta de provas e as medidas de bloqueio patrimonial.
Os próximos passos dependerão dos resultados das diligências e da análise dos materiais apreendidos. Até a conclusão da investigação e de eventual processo judicial, as responsabilidades criminais individuais deverão ser estabelecidas pelas autoridades competentes.