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Na maior chacina do Rio de Janeiro, policiais militares mataram 30 pessoas a tiros. A violência na Baixada Fluminense reflete um histórico de impunidade e brutalidade.

Manifestação pela chacina da Baixada Fluminense – Reprodução

Em 31 de março de 2005, a Baixada Fluminense viveu uma de suas noites mais sangrentas. Um grupo de policiais militares percorreu cerca de 15 quilômetros entre Nova Iguaçu e Queimados, atirando indiscriminadamente contra moradores. Em menos de duas horas, 30 pessoas foram assassinadas a sangue frio. O crime, que ficou conhecido como Chacina da Baixada, se tornou um marco da brutalidade policial no Rio de Janeiro.

Segundo testemunhas, os criminosos passaram a tarde bebendo em um bar. Por volta das 20h30, embarcaram em um Gol prata e iniciaram a matança. Armados com pistolas e um revólver, os policiais disparavam sem sair do carro. Em um bar na Rua Gama, em Nova Iguaçu, eles desceram do veículo e executaram dez pessoas.

Um sobrevivente de 15 anos, que jogava fliperama no local, fingiu estar morto para escapar. Ele contou que um de seus amigos implorou pela vida, mas ouviu do assassino: “Agora é tarde”. O jovem foi morto com um único disparo.

Vingança contra o comando da PM

As investigações mostraram que a chacina foi uma retaliação dos policiais contra o comando do 15º BPM, em Duque de Caxias. O novo comandante punia rigorosamente agentes envolvidos em crimes. Na semana anterior, policiais revoltados decapitaram duas pessoas e jogaram uma das cabeças no batalhão. Após a prisão dos responsáveis, outros agentes organizaram o massacre.

A Polícia Militar e especialistas em segurança pública classificaram a chacina como um ato de terrorismo. Para eles, os PMs utilizaram a violência extrema para desafiar a própria corporação e reafirmar sua impunidade.

A herança da violência na Baixada Fluminense

A Baixada Fluminense, com 13 municípios e mais de 4 milhões de habitantes, tem um histórico de violência associado a disputas de poder e à impunidade. Nos anos 1950, o político Tenório Cavalcanti, conhecido como “Homem da Capa Preta”, impôs sua autoridade com uma metralhadora apelidada de Lurdinha. Décadas depois, grupos de extermínio e milícias tomaram conta da região.

Nos anos 1980, assassinatos foram atribuídos a um suposto justiceiro chamado “Mão Branca”. Contudo, pesquisadores indicam que ele era uma invenção da imprensa para descrever crimes cometidos por esquadrões da morte. A herança dessa brutalidade se reflete nos números de hoje: enquanto a cidade do Rio registra 40 homicídios para cada 100 mil habitantes, a Baixada Fluminense chega a 80. Em Queimados, a taxa salta para 134,9.

Julgamento e condenações

Cinco policiais foram denunciados pelo Ministério Público e expulsos da corporação. Carlos Jorge Carvalho, Júlio César do Amaral de Paula, Marcos Siqueira Costa e José Augusto Moreira Felipe receberam penas superiores a 480 anos de prisão por homicídio qualificado e formação de quadrilha. Já Fabiano Gonçalves Lopes foi condenado a sete anos e está em liberdade.

Mesmo com as condenações, a violência policial segue uma realidade na Baixada. Para o cientista social Adriano Moreira, a herança da ditadura militar e a política de “guerra ao inimigo” ainda pautam a segurança pública. “A lógica militarizada da repressão continua presente, criando novas tragédias”, afirma.

Lembrar para não repetir

Vinte anos após a chacina, movimentos sociais e familiares das vítimas lutam para que o massacre não seja esquecido. Para os pesquisadores, reconhecer os erros do passado é essencial para evitar novas tragédias. A impunidade e a vulnerabilidade social da Baixada Fluminense continuam sendo desafios para a segurança pública e para a proteção da população.

Fontes:
oglobo.globo.com
brasildefato.com.br

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