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Conheça a história do Morro do Castelo, local que abrigou os primeiros edifícios administrativos do Rio e desapareceu durante as reformas urbanas do século XX.

Imagine caminhar pelo Centro do Rio de Janeiro e encontrar um enorme morro, coberto por casas, igrejas, ruas estreitas e construções históricas. Durante mais de três séculos, essa paisagem fez parte da cidade, mas hoje praticamente não existe.

O lugar era conhecido como Morro do Castelo, uma das áreas mais importantes da formação do Rio de Janeiro. Ali funcionaram algumas das primeiras instituições administrativas e religiosas da cidade.

Entretanto, no início do século XX, a Prefeitura decidiu desmontar o morro para abrir espaço a novos projetos urbanos. A transformação eliminou construções históricas e obrigou milhares de moradores a deixar a região.

O processo ganhou força na década de 1920 e mudou definitivamente a aparência do Centro carioca. Mas por que a cidade decidiu destruir um lugar tão importante para sua história?

O Morro do Castelo abrigou um dos primeiros núcleos do Rio de Janeiro

A história do Morro do Castelo está diretamente ligada aos primeiros anos da cidade.

Em 1º de março de 1565, Estácio de Sá fundou o Rio de Janeiro na região do Morro Cara de Cão, próximo à entrada da Baía de Guanabara.

Dois anos depois, em 1567, Mem de Sá determinou a transferência do núcleo urbano para uma elevação próxima à região central.

O local, posteriormente conhecido como Morro do Castelo, oferecia uma posição estratégica para a defesa da cidade. Do alto, era possível observar a movimentação de embarcações na Baía de Guanabara.

Por isso, os portugueses instalaram construções administrativas, militares e religiosas no morro.

Entre elas estavam a Casa do Governador, a Câmara, a cadeia, o Colégio dos Jesuítas e a Igreja de São Sebastião, que funcionou como a primeira catedral da cidade.

O morro também abrigou os restos mortais de Estácio de Sá e o marco histórico da fundação do Rio de Janeiro.

Com o passar dos anos, a população começou a ocupar áreas mais baixas, principalmente nas proximidades da atual Praça XV. Ainda assim, o Castelo permaneceu como referência da história colonial carioca.

Por que a Prefeitura decidiu demolir o Morro do Castelo?

A proposta de destruir o Morro do Castelo surgiu muito antes das obras definitivas.

Durante o século XIX, autoridades e engenheiros discutiam mudanças na região central. Parte desses projetos associava a retirada dos morros à melhoria da ventilação e das condições sanitárias da cidade.

No início do século XX, as reformas urbanas ganharam força. Durante a administração de Pereira Passos, iniciada em 1902, o Rio passou por grandes transformações.

Em 1904, a abertura da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, provocou a retirada de uma parte do Morro do Castelo.

Entretanto, a maior intervenção aconteceria anos depois.

Em 17 de agosto de 1920, o prefeito Carlos Sampaio autorizou o desmonte do morro. O governo defendia a medida como parte da modernização, do saneamento e da reorganização do Centro.

Além disso, a cidade preparava a Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, programada para 1922.

A retirada do morro permitiria criar novos espaços para construções e projetos urbanos relacionados às comemorações.

A decisão, porém, provocou forte controvérsia. Enquanto alguns setores defendiam a modernização, outros criticavam a destruição do patrimônio histórico e a remoção dos moradores.

Como um morro inteiro foi retirado do Centro do Rio?

O desmonte do Morro do Castelo exigiu uma grande operação de engenharia para os padrões da época.

Inicialmente, os trabalhadores utilizaram equipamentos de escavação e carroças para retirar terra e entulho.

Posteriormente, as obras passaram a empregar fortes jatos de água para desagregar o terreno. Esse processo transformava parte do solo em lama, facilitando sua remoção.

Além disso, locomotivas e vagões transportavam os materiais retirados das encostas.

Segundo a MultiRio, aproximadamente 4,5 milhões de metros cúbicos de terra foram removidos durante as intervenções.

Boa parte desse material serviu para ampliar áreas aterradas próximas à Baía de Guanabara, especialmente na região da antiga Praia de Santa Luzia.

Assim, a cidade não perdeu apenas um morro. A própria linha do litoral sofreu mudanças.

Grande parte das obras avançou durante a preparação da Exposição Internacional de 1922. Entretanto, registros históricos da Brasiliana Fotográfica documentam trabalhos de conclusão do arrasamento ainda em 1928.

Milhares de moradores perderam suas casas

A demolição também provocou consequências para a população que vivia no Morro do Castelo.

Apesar de sua importância histórica, a região abrigava muitas famílias de trabalhadores com poucos recursos.

Segundo a Brasiliana Fotográfica, em setembro de 1921, o morro tinha aproximadamente 4.200 moradores distribuídos em 408 prédios.

A execução das obras exigiu a retirada dessa população.

Parte dos moradores enfrentou deslocamentos para outras áreas da cidade, enquanto as autoridades avançavam com os projetos de transformação urbana.

A decisão também recebeu críticas de intelectuais e escritores da época.

O escritor Lima Barreto questionou os gastos e as prioridades da administração municipal. Monteiro Lobato também criticou a destruição do morro e a perda de seu patrimônio histórico.

Por outro lado, defensores da intervenção apresentavam o projeto como uma oportunidade para modernizar a então capital federal.

Dessa forma, o desmonte tornou-se um dos episódios mais debatidos da história das reformas urbanas do Rio.

O que existe hoje no lugar do Morro do Castelo?

A área anteriormente ocupada pelo morro passou a ser conhecida como Esplanada do Castelo, no Centro do Rio de Janeiro.

A região foi transformada em uma área urbanizada, com ruas, avenidas e edifícios que substituíram grande parte da antiga paisagem colonial.

O antigo território do Castelo ficava nas proximidades da Avenida Rio Branco, da Santa Casa de Misericórdia, da Praça XV e da Igreja de Santa Luzia.

Com o tempo, novos edifícios públicos e outras construções passaram a ocupar os terrenos liberados pelo desmonte.

Entretanto, ainda existem vestígios que ajudam a contar essa história.

Um dos mais conhecidos é a Ladeira da Misericórdia, considerada um remanescente dos antigos acessos ao morro.

Embora a paisagem tenha mudado completamente, esse trecho preserva parte da memória do lugar onde a cidade começou a organizar sua vida administrativa.

Parte da história do Morro do Castelo está preservada na Tijuca

Nem todos os elementos históricos desapareceram durante a demolição.

A antiga Igreja de São Sebastião, localizada no morro, guardava objetos relacionados aos primeiros anos da cidade.

Antes da destruição do templo, os responsáveis transferiram algumas dessas peças para os cuidados dos frades capuchinhos.

Entre os itens preservados estão os restos mortais de Estácio de Sá, o marco da fundação da cidade e uma imagem histórica de São Sebastião.

Atualmente, essas relíquias estão sob a guarda do Santuário Basílica de São Sebastião dos Capuchinhos, localizado na Rua Haddock Lobo, 266, na Tijuca.

O templo foi inaugurado em 1931 e mantém uma ligação direta com a antiga igreja que existia no Morro do Castelo.

Assim, parte da memória da fundação do Rio continua preservada fora do Centro.

Um pedaço da história do Rio que desapareceu da paisagem

O desaparecimento do Morro do Castelo representa uma das maiores transformações urbanas da história carioca.

A intervenção abriu espaço para novos projetos e modificou a região central. Entretanto, também destruiu construções coloniais e alterou profundamente a vida de seus moradores.

Hoje, quem caminha pelo Centro dificilmente imagina que um morro inteiro ocupava parte daquela região.

As fotografias antigas, os registros históricos e os vestígios preservados ajudam a reconstruir essa paisagem que desapareceu há mais de um século.

O Morro do Castelo deixou de existir fisicamente, mas sua história continua ligada às origens e às transformações do Rio de Janeiro.

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