O Brasil aumentou novamente a quantidade de etanol misturada à gasolina, passando de 30% para 32% após decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). A medida reacendeu uma discussão antiga: afinal, por que o país adiciona etanol à gasolina e como essa estratégia se tornou parte da matriz energética brasileira?
A resposta começa há quase um século. A mistura obrigatória de etanol na gasolina surgiu na década de 1930 como uma forma de reduzir a dependência de combustíveis importados e aproveitar a produção nacional de cana-de-açúcar. Décadas depois, durante a crise mundial do petróleo nos anos 1970, o Brasil ampliou essa política e criou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), uma das maiores iniciativas de incentivo ao uso de biocombustíveis no mundo.
A nova elevação para 32% ocorre em um cenário de instabilidade internacional no mercado de petróleo, com aumento dos preços dos combustíveis fósseis e busca por alternativas produzidas dentro do próprio país.
Mistura de etanol na gasolina começou em 1931
A história do etanol combustível no Brasil começou oficialmente em 1931, durante o governo de Getúlio Vargas, quando um decreto determinou que a gasolina importada deveria receber uma porcentagem de álcool.
Inicialmente, a mistura foi implantada de forma gradual:
- Julho de 1931: 2% de etanol;
- Agosto de 1931: 3%;
- Setembro de 1931: 4%;
- Outubro de 1931: 5%.
O objetivo era diminuir a dependência do petróleo estrangeiro e fortalecer a indústria nacional da cana-de-açúcar.
Em 1933, o governo criou o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), órgão responsável por organizar o setor sucroalcooleiro e incentivar o uso do chamado “álcool-motor”.
A partir daquele período, o etanol passou a ser visto não apenas como uma alternativa econômica para o excedente da produção de açúcar, mas também como uma possibilidade estratégica para o abastecimento energético do país.
Crise do petróleo impulsionou criação do Proálcool
A grande transformação aconteceu na década de 1970, quando uma crise internacional elevou drasticamente o preço do petróleo.
Em 1973, países produtores reduziram a oferta mundial de petróleo, fazendo o valor do barril subir de US$ 1,90 em 1972 para US$ 11,20 em 1974.
O impacto foi grande para países dependentes da importação de combustíveis, incluindo o Brasil.
Como resposta, o governo federal criou, em 1975, o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), com o objetivo de ampliar a produção de etanol e reduzir a dependência do petróleo.
O programa tinha três principais pilares:
- aumento da mistura de etanol anidro na gasolina;
- expansão da distribuição de etanol nos postos;
- desenvolvimento de veículos movidos exclusivamente a álcool.
A iniciativa aproximou governo, universidades, indústria automobilística e produtores rurais, criando uma cadeia nacional de produção de combustível renovável.
Fiat 147 foi o primeiro carro brasileiro movido a álcool
Um dos maiores símbolos do Proálcool foi o desenvolvimento do Fiat 147, considerado o primeiro carro produzido em série no Brasil capaz de funcionar totalmente com etanol.

Foto: Divulgação / Stellantis
O modelo começou a ser testado na década de 1970 e chegou ao mercado em 1979.
O desenvolvimento exigiu adaptações nos motores, já que o etanol possui características diferentes da gasolina.
Entre os desafios estavam:
- dificuldade de partida em temperaturas baixas;
- corrosão de componentes;
- necessidade de ajustes no sistema de alimentação;
- alterações em carburadores e peças internas.
Com o avanço da tecnologia, o país desenvolveu motores mais preparados para o combustível renovável.
Crise do programa e retomada com os carros flex
Na década de 1990, o Proálcool perdeu força devido à queda dos preços internacionais do petróleo e à redução da vantagem econômica do etanol.
A retomada ocorreu a partir de 2003, quando a indústria automobilística lançou os primeiros veículos flex, capazes de utilizar gasolina, etanol ou uma mistura dos dois combustíveis.
A tecnologia transformou o Brasil em referência mundial no uso de biocombustíveis.
Atualmente, milhões de veículos brasileiros utilizam motores flex, permitindo que consumidores escolham entre gasolina e etanol conforme preço e disponibilidade.
Aumento da mistura para 32% de etanol na gasolina
A decisão do CNPE de elevar a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% tem validade inicial de 180 dias, podendo ser prorrogada.
Segundo o governo, a medida busca reduzir a necessidade de importação de gasolina e aumentar a participação de combustíveis renováveis na matriz energética brasileira.
A estimativa é que a mudança possa diminuir em cerca de 500 milhões de litros por mês a necessidade de compra de gasolina do exterior.
O governo também afirma que a alteração pode contribuir para reduzir custos do combustível nas bombas.
Entidades alertam para testes e impacto em veículos antigos
Apesar da defesa da medida pelo governo, entidades do setor automotivo levantaram questionamentos sobre a mudança.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirmou que são necessários estudos técnicos específicos para comprovar a compatibilidade da mistura de 32% com toda a frota brasileira.
A preocupação principal envolve veículos mais antigos ou modelos que foram projetados para trabalhar com menores concentrações de etanol.
Especialistas apontam que o aumento da mistura pode exigir atenção principalmente em relação a:
- desgaste de componentes;
- corrosão de peças metálicas;
- aumento de consumo;
- funcionamento de veículos antigos.
Já o governo afirma que testes realizados indicaram comportamento semelhante ao observado com misturas anteriores e que os veículos atuais estão preparados para o novo percentual.
Etanol virou peça estratégica da energia brasileira
A trajetória do etanol na gasolina mostra que a política de biocombustíveis brasileira nasceu como resposta a crises internacionais e se transformou em uma estratégia permanente de diversificação energética.
Da primeira mistura de 2% nos anos 1930 até o atual percentual de 32%, o etanol passou de uma alternativa agrícola para um dos principais combustíveis renováveis utilizados no país.
Com a nova mudança, o Brasil reforça uma política iniciada há quase 100 anos: reduzir a dependência do petróleo, valorizar a produção nacional e ampliar o uso de fontes renováveis de energia.